Friday, October 09, 2026

O QUE TEMOS A VER UNS COM OS OUTROS

 

O temos a ver com os outros?
Tudo e nada, ao mesmo tempo. 
Parece muito fácil ignorar situações que nos desagradam ou são complexas demais, a ponto de se tornarem uma espécie de ficção em nossa realidade.

Mas logo a frente, em algum momento futuro, o que era ficção - ou problema dos outros - vai se enroscar em nossa vida. Que afinal não será problema de outros também.

Até que ponto devemos nos sentir culpados ou responsáveis por situações que não provocamos ou com o sofrimento de quem não conhecemos?

Aparentemente, quanto mais problemas percebemos ao nosso redor, maior é a vontade de fechar as portas da consciência e de nosso espaço social. É ação automática, um irresistível impulso de defesa.

No entanto tudo o que acontece tem relação direta ou indireta com o mundo particular de cada um.

Do ponto de vista ético, participar da vida equivale a valorizar o semelhante como  si próprio, já que dependemos da comunidade para garantir a sobrevivência. Portanto quem é hermético ao sofrimento alheio contraria a natureza da autopreservação, a não ser que esteja sob ameaça, onde admite-se que valores éticos sejam atropelados pela natural luta pela vida em caso de confronto.

Há várias formas de omissão. Negar auxílio a alguém  é uma delas. Mas até que ponto?

Jornais, revistas e produtos responsáveis pela informação podem omitir determinados detalhes de um fato,  quando sabemos que uma simples fofoca que omite um aspecto da verdade, pode mudar a história?

A omissão esbarra em questões éticas. Suponhamos que uma pessoa seja perseguida injustamente e outras omitem seu paradeiro! Seria essa uma omissão ética?

Poderíamos omitir a existência de um calo no pé ou de algo pessoal sem que isso ocasione qualquer transtorno comunitario. Schopenhauer diferenciava a mera omissão ou mentira  de qualquer outra ação que não provocasse dano a alguém ou a qualquer coisa. 
Tem lógica! Omitir o tal calo no pé, portanto, não seria da conta do nariz alheio!

Digamos que um médico decida omitir o diagnóstico fatal de um paciente terminal que demonstra pavor da morte. Seria um ato piedoso omitir ou mentir? 

Essa sutil diferença entre a omissão- ou a mentira não pronunciada, exige capacidade de diferenciar e de prever desdobramentos do bem e o mal. 
Não é algo tão fácil.

Kant lembrava a responsabilidade da mentira ou da omissão da verdade. Todos os desdobramentos do acontecimento seriam portanto de quem cometeu a omissão, como uma mão que desvia a linha do destino.

Assim assumir a responsabilidade por uma omissão, decorra dela um ato justo ou injusto, é assumir-se responsável também pelo que vier a suceder. 

O que se percebe, no entanto, é uma tendência a se isolar e fugir. Quando as coisas vão mal, as pessoas lamentam e erguem muros, mantendo-se sobre eles enquanto aguardam que alguém ou alguma coisa transforme o caos em ordem. 

É uma atitude comodista. Ao longo da história a omissão acontecia mais por ignorância dos fatos do que por fuga da realidade. O preço pago por essa atitude sempre foi alto, de grandes sofrimentos.

Hoje vivemos em uma era onde a comunicação é farta, mas onde o conhecimento do que é divulgado nem sempre é real e seguro. 

Isso causa um grande desconforto. Necessitamos de certezas. 

Não há como preservar a própria integridade física escondendo-se atrás de muros. A violência rompe as barreiras físicas. A única maneira de obter segurança é o esforço em definir o emaranhado de informação e imposições de posturas de pensamento e ideias. 

Nesse caso, já que fugir não vai evitar desdobramentos do mal causado por uma omissão, melhor ficar com o parece ético e justo. 

Já dizia Aristóteles que a disposição de caráter torna as pessoas propensas a fazer o que é justo, desejando e agindo nesse sentido. Bem claro que  isso significa a qualidades morais e éticas, como honestidade, responsabilidade e justiça.

Mas o desafio é recriar essa qualidade em um mundo onde pessoas de bem são infladas pela cultura maquiavélica das redes. 

Não falamos de quem, até biologicamente, tem predisposição para o  egocentrismo e libera psicopatias, mas daqueles que, em ambiente saudável, teriam pensamento e ação saudáveis. 

Esses, que podem ter restituídos seu bom caráter e seu senso de equilíbrio, tem o poder de fortalecer aqueles que tem consciência plena da humanidade, enfraquecendo o mal e garantindo a própria  sobrevivência futura. (Mirna Monteiro)