A questão é: religião e política se misturam?
Essa pergunta está em evidência, diante do crescimento de igrejas que começam a assumir um papel político. Existe até uma "bancada evangélica", no Congresso!
No entanto, isso está criando uma situação desconfortável, uma vez que a atuação política de qualquer igreja acaba contrariando sua própria razão de ser.

A razão é simples: embora o poder da religião ou da fé tenha sido usado para manipular a massa ao longo da história humana, desde os tempos mais primitivos, o que sustentava essa relação era justamente a dicotomia.
Ora, a fé implica nas necessidades do espírito, da alma, do interior humano, em sua relação com o universo, dentro do conceito óbvio da vida e da morte, a grande incógnita da humanidade.
A política é carnal, prática, negociante da vida, nos interesses do meio. Lida com a coisa pública, os espaços externos da vida.
Por esse motivo, religião e politica mantiveram-se sempre como coisas distintas, mesmo que nos bastidores a atuação da política na religião ocorresse fartamente.
É claro que nem sempre isso ocorreu discretamente. Aquele que decidia a política também comandava a igreja, como nos tempos em que imperadores eram sagrados Papa. Nos tempos da Inquisição toda política passava pelas mãos da igreja, através dos inquisidores, que recebiam o poder máximo não apenas sobre o espírito humano, mas sobre seu destino político.
Não só a religião foi usada para politica, mas a politica também interferiu no direito à fé individual. E temos o exemplo dos estragos dessa mistura.
O tempo passou, a humanidade mudou hábitos e crenças, mas a religião permaneceu como esteio no novo mundo, mais discreta em seu papel político.
Por outro lado surgiu o estado laico, que adotamos como base de respeito individual, mas também como linha divisória entre a fé, que varia as doutrinas religiosas, e a política.
A fé em Deus e os valores da alma e da vida não são dependentes de doutrinas, que existem como suporte espiritual.
Uma definição importante para evitar conflitos!
Padres e pastores salvam almas...ou fazem discursos sobre poder financeiro e político? Um pastor não pode, teoricamente, ambicionar poder ou ser perdulário!
No entanto existem igrejas e pastores riquíssimos. Veja a Universal do Reino de Deus! O bispo Macedo, fundador e líder, possui um patrimônio pessoal estimado em R$ 10 bilhões! A igreja mais rica do mundo é a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, com patrimônio aproximado de US$ 293 bilhões!
Em um país onde qualquer um pode fundar uma igreja, a situação se complica.
Como assim? Bem, se você quiser ser um pastor de sua própria igreja, não tem problema. Basta criar uma diretoria com seis cargos, com a vantagem de que pode acumular alguns. Basta uma casa e pronto, já existe a sede da sua igreja, que é considerada uma entidade sem fins lucrativos.
Foi exatamente assim que as igrejas foram se multiplicando e crescendo, principalmente as chamadas evangélicas.
Longe de contestar sua validade, o que se pergunta é o seguinte: se uma igreja se baseia no "chamado divino" e a interpretação é disso é muito pessoal, de quem acha que foi chamado, até que ponto a sua verdadeira função não estaria sendo mal conduzida?
A boa fé e o desespero humano poderiam ser usados por grupos políticos, da mesma maneira que irmandades secretas que usavam rituais como disfarce para ações de grande peso político?
É, é óbvio. O que não quer dizer que essa realidade seja devidamente analisada e compreendida pelas pessoas.
Religião, consideram muitos, seria uma grande ajuda para suprir os valores que estão esvaziados na nossa sociedade, violenta e pouco ética.
Outro fator de peso que leva a pessoas a buscarem templos é o isolamento social crescente. Através dos cultos encontra-se, além do apoio espiritual, o contato social!
Ainda ficamos em falta com a filosofia, a grande portadora do equilíbrio e do pensamento, praticamente banida das novas gerações que absorvem a confusão existencial das redes sociais.
Nesse ponto entramos em uma realidade insofismável: religião, doutrinas, crenças, rituais, enfim, tudo que envolve a questão da fé, nem sempre promovem a consciência humana. Ao contrário da filosofia, que discute a vida, a relação entre os seres e o universo, a lógica da ética e do respeito humano à natureza divina.
No entanto, filosofia e religião entram em conflito. Como impor uma doutrina religiosa que exige obediência a rituais de pensamento e ação, quando o indivíduo usa a mente e a sensibilidade para o pensamento livre?
Embora religião e política não combinem e provoquem extrema contradição, a filosofia e política promovem uma união muito favorável ao equilíbrio social e cultural.
Um político pode ter o credo que bem entender. Através dele mostrará o que norteará as suas decisões para o conjunto. Mas não deveria usar a influência obtida com a fé, que afinal não pertence a ele, ou manipular esse poder da fé para ganhar votos.
Esse texto ai pirou minha cabeça
ReplyMuito legal, linda. E gostei sobretudo disso: " Para amenizar isso não há remédio, a não ser a própria vida. Quando plena e valorizada, fornece uma espécie de coragem para enfrentar o que quer que a morte signifique. É como uma fusão com o universo. Os ateus e agnósticos mais radicais ficam furiosos com essa possibilidade, pois ela reforça a teoria do divino, pois reconhece uma força onipotente entre big-bangs e buracos negros. Uma força natural que pode não ser consciente, mas que é interdependente de todas as matérias e suas variações no mundo quântico."
ReplySó não vejo onde isso possa irritar ateus ou agnósticos. Pelo contrário, a universalização desse impulso e o fato de não pensarmos em morte quando temos uma vida ao menos momentaneamente plena e intensa podem mesmo fazer-nos dispensar qualquer deus.... Ao menos é o que sinto em mim. Posso pensar num caos infinito de forças inesgotáveis em luta e de seres que se autocriam a partir das configurações dessas forças. E se posso imaginar um universo (ou mesmo um multiverso) infinito e puro poder não-racional, para que pressupor um ser infinito e puro poder racional? Toda ordem, afinal, pode não ser mais que precária e provisória configuração momentãnea de forças que, por sua imensa resistência umas sobre as outras, parecem momentaneamente neutralizadas e estáveis. Para que introduzir um Ser que apenas visaria a reproduzir num nível cósmico nossa meramente instrumental racionalidade?
Para que introduzir um ser que apenas visaria reproduzir nossa meramente instrumental racionalidade?
ReplyConcordando com sua colocação, mas lembrando que, entre os mistérios, que nada mais são do que nossa incapacidade de sentir a realidade, está o fato de que o ser humano pode não ser capaz de entender além dos instintos primários. Assim sendo, é possível aceitar a necessidade de um ser que o console em sua limitação.
Muito interessante esse texto (crônica?) que deixa a impressão agradavel de que a morte não é um fim mas um meio. Alea iacta est!
ReplyMuito interessante esse texto (crônica?) que deixa a impressão agradavel de que a morte não é um fim mas um meio. Alea iacta est!
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