Ouve-se mais comentários a respeito do envelhecer, do que do viver...É tamanha a preocupação, que chega-se a uma conclusão: o ser humano, racional, está se rebelando demais contra a ordem natural das coisas!
Curiosamente, nunca, desde que a sociedade criou regras éticas, a vida foi tão subestimada e agredida. Ou essa a contradição não deve impor limites a expectativa humana?
Em "O retrato de Dorian Gray", Oscar Wilde tenta sintetizar a preocupação humana diante do envelhecimento do corpo, barganhando com uma tela, que retrata o jovem Gray, o desgaste causado pelo tempo. O quadro, com sua pintura, passa a "assumir" seu envelhecimento, enquanto Dorian Gray permanece lépido e faceiro, eternamente jovem, como sempre sonha a humanidade em sua vida fugaz!
Claro que, no final das contas, não dá certo e Gray é obrigado a encarar o seu retrato nos tons aguados da velhice extremamente avançada e, consequentemente, a morte tão temida. Pois o medo da velhice estaria intrinsecamente ligado ao medo da morte.
Temos o complexo de "Dorian Grey"! Wilde na sua época utilizou retrato, hoje utiliza-se o bisturi. Entre outras coisas, como botox, preenchimentos, cremes mágicos, fios de ouro ou de plástico, enfim, uma infinidade de recursos que pretendem manter a aparência mais jovem.

E por dentro?
Calma, existem recursos ortomoleculares! E no futuro a genética deverá criar outras maravilhas, a ponto de retardar o envelhecimento do organismo e permitir uma longevidade ainda desconhecida.
Ah, se Wilde soubesse que chegaríamos a este ponto!...Cleópatra, com seus banhos de leite, ficaria assombrada! Até a louca Condessa Elizabeth Bathory, que assassinou, bebeu e banhou-se no sangue de garotas para manter sua juventude e beleza, iria lamentar ter nascido no século XVII e não no terceiro milênio, em séculos que desafiam o universo!
Mas será que resolve mesmo?
Hoje mulheres e homens que desafiam o envelhecimento são criticados, em uma postura confusa em um mundo que exige juventude. Parece um beco sem saída: se a pessoa não se cuida, é velha e deve ser "encostada"; caso se cuide e mantenha a saúde e a aparência de juventude, é "ridícula"...
Isso quer dizer que existe mesmo um "complô" contra aqueles que vão envelhecendo, na disputa pelo mercado de trabalho, no argumento de que tudo deve ser renovado. É uma prática cruel do sistema de poder.
Os jovens sentem-se em desvantagem, pois a maturidade e a experiência podem fazer milagres que a força da juventude, sua ansiedade e prepotência, não conseguem!
Agora a situação, pelo jeito, será invertida...a maioria da população mundial está amadurecendo! Ou seja, nas próximas décadas teremos 80% da população mundial acima dos 60 anos!
E então?
É bem provável que a ciência já tenha, a esta altura, concluído pesquisas que permitirão a renovação do organismo e que a longevidade de mais de uma centena de anos não seja absolutamente rara.
O mundo será, então, fundamentalmente integrado por pessoas maduras!
O que vai levar o homem a desejar a vida prorrogada indefinidamente. Com risco do sistema ameaçar interferir muito mais para controle populacional...O que seria de um planeta onde o embate entre o bem e o mal teria como pano de fundo os mesmos personagens?
Tempo e velhice serão pormenores. O negócio será viver cada vez mais. E como o ser humano nunca está satisfeito (e tempo sempre será relativo) por mais que a sua vida seja prolongada, vai chegar a desejar o impossível nesta cadeia natural de reciclagem orgânica: viver para sempre!
Nesse ponto voltamos para trás, para o amadurecimento, o envelhecimento e a morte, nesta caminhada da terceira década do terceiro milênio. Por que resistimos tanto em aceitar o ciclo natural da vida?
Nos tempos primitivos, a velhice era rara, pois todos morriam jovens, nas guerras e doenças. Hoje é farta, repleta de opções.
Mas em contrapartida...não vamos também fazer apologia a velhice! Pois corre-se o risco de receber respostas atravessadas, porque viver mais não significa necessariamente viver melhor.
- Nossa, mas você está tão bem com 90 anos! Reclamar do que?
-Do que? Escuta aqui, quem sabe disso é minha escoliose, minha artrite e minhas pontes de safena!
...É, envelhecer é sempre difícil, pois a natureza não barganha retratos, bisturis e botox. O corpo muda, mesmo quando as pessoas envelhecem de forma saudável, porque as mudanças não acontecem na maturidade e desgaste físicos, mas em todo um conjunto: somos um organismo em constante mutação, desde a formação da vida no útero!
Mudanças são mudanças e quando acontecem em sintonia com a natureza, não podem ser ruins.
Talvez ao invés de tentar mudar a natureza devêssemos aprender a escuta-la, observa-la e aprender com seu ritmo.
Talvez a finitude, que é uma realidade insofismável, signifique um aprendizado para aumentar a percepção de que o corpo físico e o ego exagerado são transitórios demais para permitir a audácia humana de sentir-se dona do mundo e da natureza que a cerca, ao invés de sinalizar a necessidade de integrar-se a ela.
Talvez aí esteja o segredo da juventude eterna.
Será possível? (Mirna Monteiro)
Esse texto ai pirou minha cabeça
ReplyMuito legal, linda. E gostei sobretudo disso: " Para amenizar isso não há remédio, a não ser a própria vida. Quando plena e valorizada, fornece uma espécie de coragem para enfrentar o que quer que a morte signifique. É como uma fusão com o universo. Os ateus e agnósticos mais radicais ficam furiosos com essa possibilidade, pois ela reforça a teoria do divino, pois reconhece uma força onipotente entre big-bangs e buracos negros. Uma força natural que pode não ser consciente, mas que é interdependente de todas as matérias e suas variações no mundo quântico."
ReplySó não vejo onde isso possa irritar ateus ou agnósticos. Pelo contrário, a universalização desse impulso e o fato de não pensarmos em morte quando temos uma vida ao menos momentaneamente plena e intensa podem mesmo fazer-nos dispensar qualquer deus.... Ao menos é o que sinto em mim. Posso pensar num caos infinito de forças inesgotáveis em luta e de seres que se autocriam a partir das configurações dessas forças. E se posso imaginar um universo (ou mesmo um multiverso) infinito e puro poder não-racional, para que pressupor um ser infinito e puro poder racional? Toda ordem, afinal, pode não ser mais que precária e provisória configuração momentãnea de forças que, por sua imensa resistência umas sobre as outras, parecem momentaneamente neutralizadas e estáveis. Para que introduzir um Ser que apenas visaria a reproduzir num nível cósmico nossa meramente instrumental racionalidade?
Para que introduzir um ser que apenas visaria reproduzir nossa meramente instrumental racionalidade?
ReplyConcordando com sua colocação, mas lembrando que, entre os mistérios, que nada mais são do que nossa incapacidade de sentir a realidade, está o fato de que o ser humano pode não ser capaz de entender além dos instintos primários. Assim sendo, é possível aceitar a necessidade de um ser que o console em sua limitação.
Muito interessante esse texto (crônica?) que deixa a impressão agradavel de que a morte não é um fim mas um meio. Alea iacta est!
ReplyMuito interessante esse texto (crônica?) que deixa a impressão agradavel de que a morte não é um fim mas um meio. Alea iacta est!
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