De repente uma pergunta primária trouxe um silêncio inesperado: "Como é que nós permitimos isso, gente? Como é que o povo cai nessa situação?"
Pode completar essa cena com a expressão de grande constrangimento geral! Aliás ninguém respondeu e a discussão seguiu adiante. Obviamente a resposta a essa pergunta não pode ser resumida. Depende da qualidade de informação, de um Poder Judiciário sem contaminação, do cumprimento de leis, da formação moral e ética da população e muito mais! Poder e corrupção estão enfronhados no sistema desde sempre.
É claro que nestes tempos tudo pode acontecer. Vivemos uma fase de conflitos, onde todos os acontecimentos pressionam para grandes mudanças. Mas até o momento a sociedade humana mudou muito pouco em sua essência. Mudou o cenário, mas o ser humano é moldado no barro velho.
Kant acreditava que a dignidade é qualidade inerente ao homem. E que essa dignidade seria determinante do valor moral, de forma que o respeito ao semelhante deveria gerar uma relação emoldurada pela dignidade.
Podemos divagar sobre esse pensamento e arriscar até que ponto, independente da cultura, a sociedade humana assimila a afirmação de que seres humanos seriam mais evoluídos a partir de sua capacidade de valorizar a própria dignidade. Porque ao longo da história humana a dignidade e a honra ocuparam espaços de importância vital, mas sempre foram soterrados pelas ações obscuras e secretas, que ocorriam nos bastidores da política, filosofia e do imaginário popular.
Intrigas, planos secretos, mentiras e o uso da boa fé do cidadão integram o caldeirão dos grupos que se unem no interesse de dominar a sociedade.
Os soberanos nunca dormiram em paz, conforme podemos observar nos registros históricos. Bons governantes ou déspotas corriam sempre o risco que se escondia nas sombras. As guerras eram travadas com outros soberanos, mas nos bastidores do próprio reino fervilhavam conspirações.
Fora desse cenário, convinha manter os cidadãos longe da verdade.
Do ponto de vista político, existe realmente diferença de percepção politica entre um camponês do século XVIII e o cidadão dos nossos dias?
Considerando a capacidade de um ou outro entender o que acontece o seu redor e quais seriam as razões de seu calvário ou de sua rotina menos dolorosa, não parece haver diferença...
Seja em tempos primitivos, seja neste início do Terceiro Milênio, a maneira como o poder domina a sociedade de várias culturas diferentes, ainda é a mesma. Essencialmente, o ser humano é o mesmo, confuso em sua interpretação do que seria ético e preservaria a sua dignidade, sendo presa fácil da manipulação de fatos.
Aí chegamos no começo desta conversa e à observação indignada: "como é que nós permitimos isso, gente?"
Podemos dizer que essa também não é uma pergunta inusitada e foi justamente essa indignação popular que registrou historicamente levantes e revoluções.
Mas por maior que seja a tendência em minimizar as mudanças no estabelecimento da dignidade humana, somos obrigados a admitir que pela primeira vez na história da humanidade- pelo menos na história conhecida da humanidade - há algo diferente, que se coloca frente aos acontecimentos gerados pelos grupos de poder e domínio político. Trata-se de um processo inverso ao domínio da comunicação da massa, cuja cartilha começa a mostrar rupturas e amassados.
Leis que são deturpadas e ignoradas pelo poder político, abastecido de muito dinheiro desviado do publico e privado, estão gradativamente sendo observadas pelo cidadão comum, em seu conflito com a necessária preservação da dignidade humana!
O abuso da manipulação está remexendo com as entranhas da sociedade, que, ainda sem racionalizar o sentimento, está estabelecendo o espírito crítico não apenas individual, mas também coletivo.
Podemos arriscar a seguinte conclusão: manipulados começam a conscientizar que são submetidos a uma falsificação de sua dignidade. Mesmo com o abuso da mentira nas redes e na grande mídia.(Mirna Monteiro)

