Monday, May 02, 2011

QUEM QUER GUERRA?


Foi em uma festa de aniversário. O grupo de crianças não tinha mais do que nove anos em média e inadvertidamente algumas chegaram até os pais, que discutiam sobre a situação do oriente Médio e os  ataques de Israel na Faixa de Gaza, o atentado às torres gêmeas americanas, a destruição do Iraque e a caçada a fundamentalistas....todos animados, à beira da piscina.
Em um momento de silêncio, uma daquelas pausas que antecedem observações, ouviu-se um voz infantil e meio esganiçada se intrometer: "Ué, mas quem quer guerra?"
Pergunta óbvia e simples, mas naquele momento ninguém respondeu a ela. Os pequenos tem a péssima mania de meter o bedelho em conversas de adultos. Adultos nem sempre tem respostas. As crianças logo se desinteressaram e sairam para brincar, mas deixaram no ar um certo desconforto. Quem quer guerra? Ora...
A quem interessa uma guerra? Interessa a quem pretende pilhar ou apropriar-se de alguma coisa na marra! No entanto não é nada interessante, apenas inevitável, para quem precisa defender o seu espaço. Assim são as guerras, conflitos de interesse. Obviamente, ninguém aceita a usurpação passivamente. Já era assim nos tempos de nossos antepassados primitivos, que viviam do instinto básico.
Mas em uma civilização que se considera evoluída, capacitada para interferir na ordem natural, pretensa estudiosa dos mistérios do universo, fabulosa na criação de tecnologias e pronta para revolucionar conceitos da física?...ou é mera fachada que impede o reconhecimento de que ainda somos basicamente instinto animal?

É difícil reconhecer que a bela aparência da  sociedade humana pode esconder um interior bolorento. E uma certa falta de inteligência, o que conflita com a idéia da genialidade humana.
Estamos todos cansados de saber que qualquer ação resulta em um efeito! Não há ação sem reação no universo. O que não sabemos é até que ponto há areia em nossos olhos, confundindo nossa visão. 
Vamos analisar o óbvio, como se todos fossemos crianças, que analisam a vida com a lógica da ingenuidade...ou nem tanto. Suponhamos uma  ação que visa um propósito particular em um ambiente coletivo...não vai dar certo. Ou um propósito político em um ambiente de outra soberania...não, certamente não é possível um resultado positivo de uma ação tão antiética.
Nos tempos primitivos e ao longo da história da humanidade, poder era sobrevivência.  Poucos possuíam o poder absoluto e todos eles sobreviveram muito pouco. Não há muitos registros de déspotas longevos.  Calígula, o imperador psicopata, viveu apenas 29 anos, causou enormes estragos, espirrou sangue para todos os lado, mas durou poucos anos no poder. 
Hoje a durabilidade de erros que destroem pode ser imensa. Porque se não temos o imperialismo de sangue azul, temos os interesses econômicos que contam com aliados extraordinários, como a parafernália de armamentos sofisticados e técnicas de abdução terrestre, aqui da casa mesmo, que deixariam qualquer extraterrestre boquiaberto!

Não somos animais predadores, somos civilizados. Nos tempos primitivos a idéia de sobrevivência era a de conquistar terras e escravizar os povos. A dos tempos modernos é a de amealhar dividendos e escravizar os povos (ainda?) economicamente...só que, embora o homem moderno seja muito semelhante ao homem primitivo, o cenário mudou!
E mudou muito mesmo. O ser humano permanece com todos os seus erros e dúvidas, o seu egocentrismo primitivo e a incapacidade de se auto-conhecer, mas o planeta, ah!...O planeta já não é o mesmo!
Não falamos apenas de tecnologia, mas de capacidade física da terra em suportar a burrice e o primitivismo humano. A violência contra a natureza é hoje uma perigosa maneira de "cutucar a onça com a vara curta"...E contra a natureza, o homem e sua parafernália nada pode. Somos um grão de areia no universo.
Por esse motivo é possível entender a pergunta da criança, que soou mais como uma crítica. "Mas quem quer guerra?". Crianças, como enchem o saco! Ficam fazendo perguntas que os homens mais poderosos do mundo, adultos que recebem autorização dos seus povos para tomar decisões diplomáticas e conduzir a política mundial, não sabem responder direito.
Crianças percebem a enrolação. Adultos se habituam a ela e perdem a memória a respeito.

Sabe-se lá onde vamos parar. Mas a verdade é que o mundo não é quadrado, nem tampouco um lugar que acaba no horizonte. Explicamos com propriedade científica que a  Lua ou o Sol não podem cair aqui dentro, mas não conseguimos explicar que podemos literalmente acabar em um buraco negro.
Plantar desavenças e promover discórdia, provocando guerras e violência...e cavando o próprio buraco.
É, nossa lógica civilizada anda míope.
Estamos longe dos tempos das espadas e do corpo a corpo. Hoje a guerra é desigual e destrutiva além das fronteiras. Uma guerra, mesmo distante e circunscrita, é um crime contra toda a humanidade! Abre prerrogativas para novos focos de violência e novas guerras, jogando por terra a única conquista do homem civilizado, a ética. Sem isso vamos para o tal buraco negro. 
Quem quer violência e destruição, fome e tragédias dentro de sua terra ou de outros povos? Quem é que quer guerra? (Mirna Monteiro)

Friday, April 29, 2011

ONDE FOI QUE COLOQUEI O ÓCULOS?

Já virou clichê o sujeito desesperado, procurando o óculos, que na verdade está no próprio nariz! Ser distraído pode não ser tão ruim assim. Há novos estudos que comprovam que as pessoas distraídas são mais criativas. Considerando que outras pesquisas dão conta de que as pessoas criativas são mais felizes, podemos concluir que pessoas distraídas tem maiores chances de ser felizes.
Distração até certo ponto. Aquela que permite divagar sobre as coisas que estão ocorrendo em torno. Se passar da medida desequilibra. É o caso da esquizofrenia, que mostra o indivíduo tão atento a tudo que acontece, de maneira tão simultânea, que acaba fugindo da realidade.
Mas uma certa distração, na medida certa, para buscar detalhes em torno de sua vida, é interessante. Ajuda a resolver problemas mais complexos. Deve ser algo semelhante quando um problema ou situação parece insolúvel e acabamos encontrando uma excelente alternativa de solução depois que desistimos de espremer os miolos sobre o assunto, pensamos em outras coisas ou nos desligamos no sono. Há quem jure que não há melhor maneira de lidar com problemas do que deixar o inconsciente resolve-los sem a interferência de nossa razão consciente quando ela está falhando.
Não vamos confundir esse tipo de distração com a falta de concentração. Temos uma mania irresistível de simplificar as coisas. Saber distrair-se positivamente é uma espécie de arte, assim como conseguir concentrar-se é uma questão de sobrevivência e certa garantia de equilíbrio emocional do indivíduo.
Como tudo na vida, distração e atenção, sem extremos, podem ser o recurso para manter o equilíbrio emocional. (Mirna Monteiro)

Monday, April 25, 2011

NEM TUDO É ARTE... É?

Exposição na Bienal de São Paulo
Há sempre discussões e desacordos a respeito do que poderia ser considerado arte, em uma referência à extrema "elasticidade" de interpretacão. A arte até o início do século XX estava bem definida. Mas movimentos que buscavam inserir-se nas mudanças do ambiente urbano e na maneira de pensar mais livre, liberando-se do peso dos conceitos tradicionais, começaram a ser definidos em meados de 1800.
Nesse período a arte começou a ter a tal "elasticidade", profundamente influenciada pelo desenvolvimento industrial e o mercado mundial, com o livre comércio. Ampliou-se o seu conceito. A dança podia dispensar as sapatilhas e fluir em movimentos aleatórios sem prejuízo da sua beleza. Da mesma forma a música começou a diversificar-se, assim como o teatro, que foi ganhando maior conotação mundana, maior realismo e crueza, com palavreado popular. Ao longo das primeiras décadas do século XX as artes plásticas causaram ferrenhas discussões sobre a validade de algumas criações. Como latas da  sopa americana campbel, que sairam da cozinha para exposição em museus..."Arte é tudo aquilo que o artista afirme ser arte"arriscou-se a afirmar Marcel Duchamp, que sobressaiu-se na defesa da arte moderna.

Sob esse ponto de vista se espetarmos uma mosca em um palito e o palito em um monte de argila, teremos  uma forma de arte, ou seja, uma maneira de expressar algo que é captado por quem observa!
Assim tudo é arte! Uma cuspida em uma tela em branco, uma orelha colada no nariz, uns cem metros de tecido formando labirintos em um canto do saguão...
Caravaggio, impressionante em sua tela retratando Narciso
Por outro lado um museu pode exibir  uma tela onde uma pintura parece ter vida ou um tipo de expressão no olhar que parece vasculhar a nossa alma...
Ou podemos observar uma escultura como a de Moises, que é tão perfeita que dá para estudar anatomia ou o sistema circulatório nas veias que se sobressaem  na pele de mármore! Esse tipo de arte exigiu do artista uma profunda sensibilidade a respeito do elemento humano e sua expressividade, mas também uma técnica excepcional, de mãos mágicas que não apenas imitam a natureza humana, como a sublimam.
A arte fala diferentes linguagens. Uma foto pode congelar um momento vulgar, mas com tamanha expressão que o torna único. Um artista pode surpreender-se com a fidelidade de sua obra, a ponto de encanta-lo. Michelangelo reconheceu que ao seu "Moisés" faltava apenas uma coisa : "Perchè non parli?" (Porque não fala?) ...Fala Moisés!. O artista, autor das incríveis pinturas na abóbada da Capela Sistina, enganou-se: não faltava nada a sua escultura! Uma obra de arte que atinge quem a observa "fala" em uma língua universal. Ele próprio, Michelangelo, dizia que de todas as artes, a escultura era a mais próxima de Deus. Freud, um admirador confesso desse grande artista, concluiu que criações de arte são incompreensíveis e constituem verdadeiros enigmas! Mas ele reconhecia na formas de "Moisés" uma força que o hipnotizava e o levou a frequentar assiduamente a igreja San Pietro in Vincoli.

A "modernização" da arte trouxe resultados interessantes, que acompanhavam a crescente agitação cultural e a mudança na relação entre as pessoas e o meio, seus questionamentos  e a necessidade de  sentir-se emancipadas em seus valores.

Joan Miró , que através do surrealismo criou uma linguagem
artística  muito pessoal e  rica em questionamentos
Anita Malfatti criou um estilo diferente, originado do
expressionismo, fauvismo e cubismo
No Brasil, em 1922, quando foi realizada a Semana da Arte Moderna, no rastro das inovações da arte na França e em outros paises europeus, as novas formas de expressão e linguagem não foram entendidas  unanimamentes. Pelo contrário, choveram mais críticas do que elogios. No entanto artistas dessa fase considerada estranha por muitos tornaram-se ícones de expressão artistica décadas depois.
As mudanças de expressão continuaram ao longo dos últimos quase noventa anos, desde a Semana da Arte Moderna. Para alguns, as inovações da linguagem artística "perderam a medida", deixando de comunicar idéias e sentimentos coletivos, para expressar-se individualmente e de um ponto de vista único, talvez narcisista na ansiedade de destacar-se na multidão sempre crescente, talvez comercial em demasia, quebrando a fluidez necessária entre o artista e sua obra e o mundo ao redor.
Na Bienal da Austrália
É o caso das artes expostas nas Bienais, exposições onde a idéia da vanguarda parece prevalecer sobre a riqueza da criação artística. Nelas encontramos mostras estranhas, como um cão preso a duas coleiras, um espaço coberto de azulejos e mais nada ou um quadro negro sobre montes de pó de giz, na linha adotada por Duchamp.
O que se observa é uma necessidade do artista em explorar o cotidiano, sua rotina e mazelas e a extrema dependência do mundo manufaturado, que de certa forma reduz o fator humano a uma engrenagem.
Outro aspecto dessa tendência é a crítica ao sistema e ao conflito entre o pragmatismo da vida atual e a necessidade da manutenção de valores, que estão se esvaindo no cotidiano das relações humanas. Considerando a grande confusão dessa temática, é possível entender a enorme diferença entre as expressões da arte ao longo dos séculos passados, meticulosa e focada no homem e na natureza, e a atual,  dispersa em um mundo de imagens fictícias e opressivas.
A questão provavelmente envolve  fato de que o conceito da arte é tão pessoal e diverso quanto quem vai observar e captar o seu sentido. Há produtos da arte que emocionam e tornam-se permanentes, enquanto outros podem ser tão descartáveis como o modo de viver atual, pois representam exatamente essa fragilidade do sistema. O que importa realmente, é que a arte aconteça, permanente ou provisória, como um retrato da vida em seus ângulos e diferentes aspectos. (Mirna Monteiro)
sionista

Monday, April 18, 2011

SOMOS REAIS OU IMAGINÁRIOS?

Como você vê o mundo, super-influenciado pela mídia, ocupado por imagens ficcionais que invadem a realidade? Ou no caso da realidade invadir o virtual?
Bombardeios e fuzilamentos estão sendo noticiados, seja na Palestina, na Líbia ou em qualquer lugar do mundo, mas apesar de causar impacto na vida das pessoas a consciência de sua dimensão fica comprometida  por um processo interessante: quanto maior a vivência da ficção violenta, através de filmes e games, mais a realidade se mescla à fantasia na mente humana!
Essa condição vez por outra se torna bastante evidente. Quando Saddan Hussein foi enforcado, a realidade ou não de sua morte naquele cenário foi contestada por muita gente. Um jornalista egípcio sustentou que o ex-ditador iraquiano não estava ali e sim um sósia dele. Segundo esse jornalista Saddan nunca foi capturado pelos EUA.
O que é realidade? O que seria ilusão?
A linha divisória entre a realidade e a ficção está cada vez mais tênue, concorda a professora Ivone Marques. Ela conta que experiências com as crianças demonstram que o cérebro humano anda confundindo o real e imaginário.
“Passei um documentário sobre o Iraque, onde soldados atiravam contra casas semi-destruídas e de repente um caminhão foi atingido por um morteiro, explodindo em chamas. As crianças, com idade entre 9 e 10 anos, não sabiam responder se aquilo era uma cena de ficção ou não. Um dos meninos foi claro: “Vejo a guerra, pessoas lutando contra os outros, igual nos filmes!”
Ou seja, para quem cresce em um mundo de imagens, onde a violência virtual é exagerada, a interpretação do terror e destruição no mundo real fica comprometida.
O processo de confusão, onde o real parece ficção e a ficção algo natural, incluindo aí a violência clara ou subentendida, não ocorre apenas com as crianças. Ao mesmo tempo que o jornalismo se torna mais realista e eficiente em mostrar a realidade em fotos, filmes e relatos, o avanço da tecnologia e os efeitos especiais que levam à cenas da ficção absolutamente críveis, também interferem no mundo dos adultos, onde as variações de percepção influenciam a lógica!
“As vezes quando acordo fico na dúvida se tive mesmo um sonho que está na minha memória ou se vivi uma realidade”, comenta Luciano, 34 anos, programador de computação e assíduo freqüentador do mundo virtual. “Acho que o mundo virtual está mexendo com minha percepção da realidade” arrisca ele.
Em um mundo repleto de informação e imagens, reais e ou virtuais (que parecem extremamente reais), não são apenas as pessoas que passam horas imersas em uma tela do computador que sentem seus efeitos.
Também a mídia eletrônica, através da televisão, e a ficção elaborada que vai às telas do cinema parece provocar mudanças na percepção das pessoas.
Muitos relacionam esse “descontrole” perceptivo também ao tempo. “A terra parece girar mais rapidamente, mas eu considero a mudança de horários constantes, como o horário de verão, um fator que “bagunça” a relação natural das horas com o movimento do sol e da noite” reclama o professor Oswaldo Grecco.
Se a percepção humana está sendo afetada por diferentes fatores – como bombardeio de informação, imagens, mundo virtual e confusões com horários elásticos, a capacidade de
orientação e o próprio raciocínio ficam comprometidos.
Por isso há pessoas que não acreditam nas próprias previsões da ciência, como as conclusões das pesquisas científicas acerca da temperatura do planeta. “Imagine se eu vou acreditar que os pólos vão derreter!”, admirou-se um participante de um fórum na Internet.
Outros, especialmente os jovens, embora aceitando a validade das pesquisas, não conseguem imaginar-se dentro da realidade. “Mas daqui a cem anos eu nem existo mais”!...
Ou seja, para a maioria das pessoas, as tragédias reais não são ameaçadoras, até o momento em que algum fator a torne próxima o suficiente para interferir em sua rotina e, portanto, real. Caso contrário as informações científicas são interpretadas com o mesmo espanto e terror imediato de um filme tipo “The day after”, ou documentários com rigorosa base científica são interpretados como probabilidade remota que permanece no consciente  até a saída do cinema e a colherada de sorvete.
Esta possibilidade é aterradora, se coinsiderarmos que o hábito à violência ficcional pode ser assimilado pela mente humana como rotina real. Agressões, tiroteios, grosserias, tudo isso passa a ser reconhecido como "natural" ao meio, ganhando certa familiaridade. Os vilões do mal não podem ser tão fortes e charmosos ou vencer os "do Bem", como anda pregando nossa ficção.
Em mentes perturbadas, essa relação pode facilmente desencadear comportamentos antes reprimidos pelo meio. A vida humana torna-se reles e dispensável, como as dos zumbís que tem suas cabeças explodidas pela arma do jogo virtual.
Há quem diga que toda essa violência ficcional tem o objetivo de transtornar as sociedades e implantar o caos, no mais absoluto exemplo teórico das conspirações do mundo moderno. Independente de qualquer exagero ou transtornos, a verdade é que começamos a enfrentar um claro desequilíbrio entre o real e o imaginário, com consequências muitas vezes dramáticas. Misturar realidade e ficção poderia não ser uma influência tão nefasta se houvesse maior atenção a fatores de comportamento que auxiliam a manter uma relação saudável com o meio desde a infância.  (Mirna Monteiro)