Wednesday, March 02, 2011

A FORÇA DA PINTURA AFRICANA CONTEMPORÂNEA




Diversificada, rica em elementos culturais e tradições, a arte africana mostra claramente a integração aos costumes tribais. Cores fartas, densas, criadas e recriadas em ambientes naturais.
Bela, expressiva, étnica, forte. Mas principalmente variada na tela de artistas de diferentes países africanos.
Charlotte Derain


Charlotte Derain



Gerry Baptist


Malangatana


Jacques Beaumont


Alegria pela paz



Monica Stewart


Colagem de Wanghechu Mutu

Thursday, February 24, 2011

VIVENDO COM O INIMIGO


Parece muito dramático: você está andando na rua, olhos atentos a qualquer pessoa que passa próxima à você; qualquer um pode ser um agressor, não pode? São pessoas desconhecidas! Mas e quanto à ameça de pessoas, empresas, instituições e ambientes em que você confia?

Este parece ser o novo desafio da sociedade deste século: distinguir entre estranhos e conhecidos quem pode ser uma ameaça à integridade física ou material. O inimigo não é mais o tigre que rosna em torno da caça, mas um lobo que veste as mais variadas peles, do empregado doméstico aos seguranças contratados para defesa, ou até mesmo pessoas da própria família! 
Imagine esta cena que se torna comum: para você entrar em uma agência bancária com a finalidade de acessar sua própria conta ou fazer seus pagamentos, você geralmente é barrado na porta giratória e obrigado a esvaziar bolsos e bolsas.
No entanto, a mesma porta que barra suas chaves, seu celular ou até suas obturações dentárias (exagêro...) não consegue impedir que bandidos armados surjam como por encanto e assaltem a agência onde você foi pagar a conta de luz.

O problema é que esses assaltantes lucram mais esvaziando os bolsos dos clientes do que esvaziando os caixas do próprio banco, que afinal tem seguro!
E o cidadão é duplamente punido, por ser constrangido no momento de entrar na agência bancária e ser assaltado antes de sair dela!...Aliás aumentaram os casos de bandidos que agem na saída dos bancos, cada vez mais organizados para os assaltos ao cidadão. 

Shoppings centers eram considerados locais seguros. Seguro para o seu veículo no estacionamento, seguro para você fazer compras sem se preocupar com a bolsa...era assim. Agora os shoppings são palco de tiroteios de quadrilhas mais sofisticadas que visam joalherias.
Parece ser uma questão de oportunismo: as joalherias de shoppings são presas fáceis pela própria idéia lugar é mais seguro. Certamente a partir do momento em que estratégias forem adaptadas para dificultar os assaltos surpresa, os assaltantes vão ter de mudar de tática e surpreender outros locais. É claro que esse fato serve apenas para tornar o cidadão mais inseguro ainda, pois não se sabe de onde virá o próximo golpe.

Você tem coragem de deixar as crianças sozinhas com a babá? Cresce o número de pessoas que são obrigadas a espionar as babás que cuidam de seus filhos. Muitas pessoas abriram mão da privacidade em nome da segurança e mantém a casa equipada com câmeras em todos os cômodos.
E sua empregada doméstica? Conhece todos os hábitos da família e tem acesso à todas as fechaduras da residência? E o guarda-noturno? Os chamados "seguranças coletivos" que passam  de casa em casa cobrando taxas para apitar até você dormir também representam um risco, pois ficam conhecendo todos os detalhes do bairro e sabem quando uma residência está vazia. Pode haver entre eles um "olheiro".

E o segurança do condomínio ou do prédio?...Ou mesmo amigos e familiares, em casos onde cresce a ocorrência de abusos sexuais em crianças, estupros e mesmos seqüestros? Ou mesmo o marido, que cada vez mais aumenta a estatística de espancamento e assassinato das mulheres.
Ou mulheres que também matam seus homens e seus filhos. E que cada vez mais abusam emocionalmente de crianças.
O inimigo íntimo começa a colocar as garras de fora e age cada vez mais, contando com a impunidade.
A desconfiança de tudo e de todos parece ser a nova necessidade moderna. Um retrocesso: exatamente como nos tempos das cavernas!


É interessante lembrar o "daimonion" de Sócrates. Dizia ele que "em mim se verifica algo de divino ou demoníaco (...) uma voz que se faz ouvir dentro de mim desde que eu era menino e que, quando se faz ouvir, sempre me detém de fazer aquilo que é perigoso e que estou a ponto de fazer, mas que nunca me exortou a fazer nada".
Passamos por uma fase onde a voz da razão e do limite anda rouca demais, deixando poderosa a voz demoníaca. Cada vez mais, na desordem social e na pressão do consumo o mundo perde a coerência para a convivência pacífica e não consegue inserir-se na lógica da cidadania.
Devemos reaprender a "ouvir" nossa intuição e estabelecer contato com a vida através do respeito à natureza e à consciência de que aquilo que movimenta o mundo parte não de algum espaço alienígena, mas de nós mesmos. 
Demócrito escreveu que a bondade não é uma questão de ação; depende do desejo interior do homem. O homem bom não é o que pratica o bem, mas o que deseja praticá-lo sempre.

Se o interior humano anda tão precário, devemos antes de mais nada analisar nossos pensamentos e ações, pois somos a gota que faz transbordar o copo!
Principalmente se concordarmos com Espinosa, que achava que o esforço de se preservar é um bem e o que trava esse esforço é um mal. Ou seja, a presença do mal é simplesmente a falta de esforço em se promover o bem!
É preciso se esforçar e suar a camisa para manter o equilíbrio na convivência.
Estamos todos, talvez, demasiados omissos e preguiçosos, afundando em uma vida ficcional e superficial dos prazeres do consumo e da hipnose da mídia. O preço está sendo alto: cada vez mais o espaço individual está sendo reduzido, enquanto a ameaça à sobrevivência aumenta!
Se o antigo Protágoras estava certo, estamos todos ferrados: "o homem é a medida de todas as coisas... Cada um tem o direito de determinar, por si, o que é o bem e o que é o mal...". Neste nosso espaço cada vez mais aviltado e confuso, isso seria realmente a verdadeira anarquia do final da raça humana, pelo menos nos moldes que criamos para nosso atual sistema de vida. (MM)


Tuesday, February 22, 2011

QUANDO A VIDA NÃO VALE A PENA



A cena de um sujeito balançando o corpo sem vida, com a corda no pescoço, em um viaduto de 
São Paulo, é impressionante. De um lado e de outro, em meio ao grande movimento de veículos e pedestres, as pessoas param por alguns minutos para repetir a mesma pergunta: o que leva uma pessoa a acabar com a própria vida?

Por toda história da sociedade humana, o suicídio foi uma constante. Aliás, pessoas famosas e aparentemente bem sucedidas recorreram a esse ato extremo. De personagens da mitologia a artistas, filósofos, escritores, poetas, dramaturgos, atores, cineastas, físicos, químicos, matemáticos, médicos, religiosos, políticos, reis, imperadores, militares, desportistas, agitadores, assassinos e mais seis Prêmios Nobel e vários vencedores de Prêmios Pulitzer. Pessoas bem sucedidas e sem problemas financeiros e aparentemente bem inseridas social e culturalmente.

A ocorrência de suicídios tem aumentado. Mais de 1 milhão de pessoas tiram a própria vida por ano. Poderíamos dizer que isso acontece proporcionalmente ao aumento da população mundial, mas ainda assim o ato em si é motivo de estudos e discussões polêmicas, em uma época de grande informação e recursos.

Coréia do Sul: onda de suicídios em 2010 leva a morte cerca de 40 pessoas por dia. Aparentemente suicidar-se virou solução para muitos problemas, como a crise financeira asiática, que desde 97 aumentou a instabilidade do emprego.

Há tempos o suicídio vem aumentando. Em dados de 2001, suicídios superaram a cifra de mortes por homicídio (500 mil) e mortes pelas guerras (230 mil) no mundo. Claro que agora, e desde 2002, os números estão mudando: as mortes por guerra, urbana (violência) e os confrontos internacionais superaram em muito essas estatísticas. Mas ainda assim não reduzem o impacto do atentado contra a própria vida. Morrer em uma guerra é fatalidade, mas acabar com a própria existência contraria o instinto básico, que é o da sobrevivência. Talvez a artificialidade da vida e a necessidade de trabalhos robotizados em longas jornadas exasperem a alma humana e tornem a visão da vida suficientemente frágil a ponto de torna-la dispensável. 
É este o caso das mortes na China. Em uma fábrica de iPhone aconteceram no ano passado suicídios consecutivos. Empregados atiraram-se dos andares mais altos. De dez suicidas apenas dois foram salvos. A empresa contratou psicólogos e monges budistas foram chamados para afastar "maus espíritos";

E a pergunta é sempre  repetida: o que leva uma pessoa a acabar com a própria vida? Cada qual tem um motivo superficial, mas a depressão parece estar presente em todos os casos de pessoas que atentam contra a própria vida.
Basicamente o suicídio nada mais é do que a entrega total dos pontos: a pessoa se vê sem alternativas para continuar lutando pela vida. Não há vida sem esforço para transformação!
Para a maioria das pessoas, o suicídio é uma forma de desprezo à vida. E de agressão ao meio. Para outras é a constatação de absoluta falta de controle sobre a própria vida. Mas a insegurança e o medo podem ser também a causa. O que transforma o suicídio em um ato absolutamente motivado pelo medo, ou pela covardia de enfrentar o futuro. No entanto, esperar pode mudar completamente essa sensação. "Um dia depois do outro" ou "amanhã é um novo dia"  não são meros chavões, mas inidicam a dinâmica real da vida.  As coisas realmente mudam, porque a própria interpretação das coisas é mutável!

Em geral os jovens se impressionam com a ação. Costumam interpretar o suicídio como coragem, esquecendo-se, em sua visão romântica, que só poderia haver coragem quando há valorização da própria vida...que poderia, talvez, enfrentar a iminência da morte para salvar outras.
Mas uma vez que a pessoa se sente derrotada e perdida, o suicidio parece ser apenas uma maneira de tentar evitar o sofrimento e os desafios. Portanto estaria mais próximo da interpretação de uma fuga ou um ato de covardia (parte um)

(Continua)

QUANDO A VIDA NÃO VALE MAIS A PENA (2)


O Prêmio Nobel Gery Becker (no estudo Suicide) interpreta o suicida como um agente racional, que considera o futuro e toma a decisão que maximiza sua felicidade. Essa racionalidade seria compatível com sentimentos de depressão, que envolveriam a incapacidade de extrair felicidade da própria situação.
Neste caso, o indivíduo se mata quando presume que a infelicidade de hoje persistirá no futuro. Por isso, os suicídios são mais freqüentes entre os que sofreram uma perda violenta (do nível de renda ou de prestígio, por exemplo) e não enxergam uma chance de sair do buraco.

Sob o ângulo da filosofia, há acordo nesse sentido. Schopenhauer dizia que um homem põe fim à própria vida quando seus terrores são maiores do que a morte! E Hume, acertadamente, garantia que nenhum homem joga a vida fora enquanto ela vale a pena!

Naturalmente existem interpretações científicas que procuram uma causa patológica para tendências suicidas. Uma falha genética ou um problema químico do cérebro, que normalmente está programado para a auto-preservação.

Ou seja, a auto-preservação vem "embutida" em nossos gens! Não fosse isso, e a espécie humana já teria se extinguido. Nossa auto-defesa é automática, assim como a de qualquer forma de vida no planeta. Reagimos de maneira defensiva à qualquer ameaça.
Por esse motivo os suicidas da guerra são um exemplo do quanto a pressão psicológica pode criar ou desencadear um ato tão drástico, mas neste caso através da sedução, como algo a ser premiado.

Depende de um ambiente conflituoso e de uma espécie de lavagem cerebral, que criam espécies suicidas, como com os kamikazes, do Japão, ou os sahids no Oriente Médio.
O desespero pela vitória, a "premiação" pela morte (aos mais jovens e ingênuos, o paraiso com um belo harém, e aos mais reticentes, prêmios em dinheiro que ficam para ser usufruidos por aqueles que amam) são fatores que podem superar o instinto da auto-preservação.

Mais do que nunca, vivemos em uma sociedade que passa por grandes transformações e onde o indivíduo não possui peso de valor. Ou seja, a vida, em suas diferentes formas, passou para um segundo plano, para ceder espaço ao materilismo exacerbado.

É claro que o ser humano, preparado naturalmente para viver em comunidade, vê ruir valores e a família, o que torna toda a sociedade humana fragilizada e insegura; isso o transtorna e torna-se uma ameaça além de suas forças. A sensação de impotência certamente agrava a depressão e a possibilidade de desistência da luta pela felicidade e até pela própria existência.
Em ambientes comuns, suicidas em potencial demonstram características próprias. Por exemplo, o adolescente com tendência suicida pode atentar contra a vida em estado de grande melancolia. O adulto, quando em profunda depressão, em geral acompanhada da falta de perspectiva de futuro.

Há mais mulheres que tentam o suicídio do que homens. No entanto há mais homens que atingem esse objetivo. A explicação é óbvia: os homens costumam utilizar armas de fogo, que em geral levam ao óbito imediato. São mais pragmáticos também diante da morte!

Mas o tipo de suicida mais comum é justamente aquele que não conscientiza diretamente a intenção. Você pode ser um deles e não ter percebido ainda!
É o caso das pessoas que consomem drogas perigosas ou mantém hábitos mortais a longo prazo, como o uso do cigarro e da bebida.
É possível estabelecer uma relação entre momentos de grande conflito e desequilíbrio social e o aumento de hábitos perniciosos à saúde. Por exemplo, o excesso de alimentos considerados perigosos ao organismo. Mas o diabético que insiste em consumir alimentos que elevam a glicemia a níveis insuportáveis ao organismo ou o cardiopata que apesar das artérias obstruídas pela gordura insiste em comer a capa da picanha ou o torresmo, poderiam ser considerados suicidas em potencial?

Há quem acredite, erroneamente, que a miséria e desorganização social é a maior causa de desistência de viver. Não é mesmo! Paises excessivamente organizados demonstram os mais altos índices de suicídios. Como a Suécia, que já manteve índices impressionantes. A explicação mais utilizada fala sobre a nostalgia dos períodos do ano em que não há sol, mas apenas noite. Mas há estudos que citam outras causas, como o assédio sexual no trabalho ou em oposto a ausência de desafios, em uma rotina excessivamente imutável.

Falta de desafios ou o excesso deles...O ser humano parece boiar em uma superfície que o desanima quando sacode demais ou está absolutamente inerte!
A vida apresenta momentos complicados, sentimentos confusos, sensação de solidão insuportável. No entanto, viver implica em assumir a vida em todos os seus desafios. Talvez a origem do impulso suicida esteja na incapacidade de perceber que a vida não se resume à superfície... (MC)