Tuesday, May 31, 2011

A INTELIGÊNCIA E SUAS VARIAÇÕES



"(...) Um dos testes para a obtenção do emprego que eu queria era de QI (...) Mas achei absurdo(...) Testes de QI deveriam ser proibidos, você não acha?" 

Nesse caso é preciso saber os critérios da empresa na avaliação de seus candidatos. Mas medir a inteligência realmente é complicado. Será mesmo que podemos fazer isso através de algum sistema padrão? 
Que a inteligência pode ser "alimentada" e aumentada e que existe um conjunto de fatores que auxiliam seu desenvolvimento desde o berço, não há dúvida.
Mas quando se fala em testes e medição de QI (Quociente de Inteligência), há amplas discussões. Esses testes, fundamentados ou não, deixam para fora do mercado de trabalho muitos candidatos, além de colocar em dúvida a eficiência de crianças e jovens nas escolas que oferecem alguma oportunidade especial.
Quem não concorda com testes de QI argumenta que avaliações assim não podem ser uniformizadas ou feitas em grupo. Os pontos deveriam ser avaliados individualmente e de maneira rigorosa por um profissional especializado, atento à diferenças na manifestação de cada um de suas capacidades.
Quer outra constatação de falha? Muitas vezes uma pessoa que realiza o teste pode ter variações que vão além de 40 pontos em fases distintas de sua vida, para mais ou para menos!
Há muitos outros problemas citados, como a influência do meio cultural. Até mesmo uma educação comportamental pode ser confundida com inteligência.
De certa maneira testes de QI ajudam a ter uma idéia geral da capacidade da pessoa em lidar com desafios básicos profissionais.  Mas não pode ser considerado definitivo quanto à capacidade mental do indivíduo em inúmeros outros campos de ação e tipos de inteligência, como a emocional, considerada nos dias de hoje tão ou mais importante do que a inteligência prática.
O que se procura entender é o desenvolvimento do equilibrio entre os "tipos de inteligência". O que contradiz o conceito de genialidade, que na verdade limita a pessoa a uma poderosa característica de talento, em detrimento de outras capacitações ou do uso do cérebro de maneira mais ampla e diversificada. O gênio pode ser um talento inigualável na música ou na física, não possuindo entretanto ou necessariamente a inteligência emocional e a capacidade de interagir com a vida.
Cada vez mais o conceito da genialidade  se transforma e poderia ser interpretado como "a inteligência eclética", que não se resume ao armazenamento de informações, ou ao desempenho de um único talento em detrimento de outros igualmente importantes, mas a capacidades múltiplas, como aquela que permite desenvolver a informação além de seu mero armazenamento, por exemplo aliando memória, interpretação dos fatos e criatividade.
Fala-se muito em "ginástica cerebral!", que poderia auxiliar o processo de desenvolvimento de áreas potenciais do cérebro. No caso, não bastaria ler, mas aprender a concluir e a argumentar toda a informação processada. Não bastaria empenhar-se apenas nisso, mas praticar um esporte, lavar uma louça ou desenvolver algum artesanato ou arte, além de aprender a lidar com emoções e a solucionar conflitos, porque o fundamento do "exercício cerebral" exige funções variadas e, adivinhe, as mais prosaicas! 
Se assim é, um bom começo para exercitar a inteligência - e isso pode acontecer desde o berço -  é deixar o pensamento livre, cantar e inventar, ler e imaginar, permitindo que haja estímulo diferenciados e variados ao cérebro. (Mirna Monteiro)


Friday, May 27, 2011

FILOSOFIA EM TEMPOS DE APOCALIPSE

O que se ouve:
(...) Sinto a depressão e a tristeza nas pessoas, a vida parece sem sentido...
“(...)Não dá para viver assim (...) Não sou derrotista, mas está demais! Ninguém respeita ninguém, vivemos a era da cara de pau..."
 "(...)Quem desrespeita a lei sem preocupação de ser punido? É quem tem poder econômico e político, ou econômico e por isso político, como as grandes empresas, os bancos, até o quitandeiro da esquina, que riem-se da nossa justiça e colocam-se acima da lei . Quem vive desse jeito? (...)
"(...) Recentemente um grupo de alunos me desacatou na sala de aula e um deles chegou a me ameaçar caso eu "não fosse generosa” com as notas. Sou professora há 16 anos e fico horrorizada com a crescente falta de consideração entre as pessoas. Isso é uma espécie de terrorismo ideológico. Acho que aulas de filosofia e cidadania poderiam ajudar, percebemos que falta referência aos jovens (...)
“(...) Em minha família a farmácia virou rotina, a gente consome lá que nem (sic) se fosse supermercado, todo mundo sofre de depressão e hipertensão, tem armário cheio de medicamentos (...)

Quem já não ouviu sobre algumas dessas situações ou não viveu realidade semelhante? Essas frases são comuns a todo instante, nos mais variados lugares.
A sociedade vai mal?...vai mal, decerto.  Ao mesmo tempo em que avança de maneira surpreendente no desenvolvimento da tecnologia e da ciência, regride com a mesma força na qualidade da vida emocional dos indivíduos, o que afeta a relação na comunidade.
Talvez por esse motivo os livros de auto-ajuda tenham causado uma verdadeira explosão de vendas nas últimas décadas. Talvez por isso igrejas das mais diferentes e estranhas doutrinas movimentem bilhões de fiéis que despejam dinheiro também aos bilhões no mercado religioso.
Por esse motivo, falar em filosofia hoje tornou-se cada vez mais comum. "Sobra pragmatismo, falta filosofia!" dizem. O que se quer dizer com isso? Que a filosofia seria a panacéia para o males modernos que levam à histeria da massa e à desintegração dos principais pilares de uma sociedade organizada, tornando "demodè" o respeito à comunidade?
Há muitas perguntas. Introduzir filosofia e sociologia como matérias obrigatórias no currículo do ensino básico ou médio (Por que ensino médio apenas?) teria um resultado prático?
Quando se fala em sociologia e ou quaisquer "logia", vem a imagem de um sujeito retórico derramando sobre os alunos teorias e mais teorias. O que diremos da filosofia? As jovens crias da educação cibernética e do pragmatismo moderno terão paciência para entender princípios socráticos, pensamento de Platão ou Aristóteles, teorias de Kant e Hengel, aforismos de Nietzsche, ou o criticismo, spinozismo e outros "ismos"?

Se bem que filosofia também é humor, pois se a vida é tragicômica, as deduções sobre ela também são.
Como o relato a respeito da atitude de Sócrates, o mais popular dos filósofos, em sua vida conjugal. "Em certa ocasião, depois de havê-lo injuriado Xantipa, ela arrojou-lhe água ao rosto, ele lhe disse:
- Já o sabia eu, que tão grande tempestade não poderia passar sem chuva" (D. L., II, 36).
Filosofia, de fato, pode ser um estudo extremamente interessante. Ou maçante. Deveria ser matéria curricular, mas de que maneira isso será ministrado, considerando a rapidez do mundo atual? Até que ponto há professores preparados para discutir o ensino da filosofia de maneira que se enquadre no nosso tempo, fazendo renascer de maneira direta e produtiva a capacidade de pensamento, a observação da natureza e o respeito às coisas e seres, de maneira a resgatar a civilidade e os valores fundamentais para a convivência humana?
Ou, mais importante, de que maneira irá traduzir a linguagem de modo a torna-la assimilável para alunos de realidades diferentes.
Uma coisa é conhecer os principios da Filosofia e os estudos dos pensadores, outra é simplificar a comunicação da Filosofia sem distorcer seu sentido.
A Filosofia, na verdade, está presente em todos os campos do conhecimento humano. Ensinar filosofia, é ensinar a pensar!

O RISCO DA DOUTRINAÇÃO
Uma das maiores críticas em relação ao ensino de matérias não curriculares é a do risco da doutrinação. Política, por exemplo, é relacionada a antigos ensinamentos nos anos de ditadura militar, com a Educação Moral e Cívica, onde a criança aprendia valores comunitários, mas também assimilava a orientação política da época, que era baseada na censura e, portanto, na aceitação sem discussão das decisões econômicas, sociais ou educacionais.
No entanto hoje vivemos a liberdade de expressão e o ensino da política continua igualmente importante, mas muito mais complicado de processar-se imparcialmente. Deve mostrar ao cidadão a necessidade de participar das decisões e ações de seus representantes políticos, não se acomodar em mera situação  de leigo que sequer consegue estabelecer a escolha do seu voto de maneira realísta e sem influências do jogo do poder. A  liberdade também tem seu preço com o aumento da responsabilidade individual.
No caso da filosofia, o risco é o mesmo. Um professor despreparado pode confundir ou até mesmo impor determinados valores de interesses momentâneos, utilizando consciente ou inconscientemente de certo maniqueísmo e caindo no risco da doutrinação.
Se a filosofia realmente conseguir se encaixar nos currículos escolares, sempre estaremos enfrentado a duvida a respeito da maneira como será desempenhada na realidade da formação de nossos professores. Ainda que haja capacidade de desempenho e conhecimento suficiente para o repasse de noções de ética e moral em todos os ângulos do pensamento humano, haverá sempre a incontrolável mania de imposição de dogmas escorregando nas entrelinhas. A realidade mostra bem que no contato do professor com alunos ocorrem exageros nas impressões pessoais e ideologias, seja na aula de matemática, português ou, principalmente, história!
No entanto, o ensino da filosofia poderia minimizar o risco da doutrinação, pois um de seus princípios  é a necessidade do aluno conhecer diferentes posturas e opiniões e discutí-las, com a finalidade de criar um interpretação pessoal e por fim estabelecer a própria opinião, considerando o universo ao seu redor.
Talvez isso seja possível sem os artifícios da massificação da filosofia que encontramos nos próprios campos acadêmicos. Há muito mais a se pensar quando a cadeira é trocada pela pedra, onde se acomoda não apenas o corpo, mas também se aguça a percepção de que ali está uma peça original. Talvez a alternativa para o ensino da filosofia em nossas escolas seja o de simplesmente ensinar a pensar, discutir e criar capacidade crítica, como faziam os antigos pensadores que levavam em suas aulas apenas a disposição de usar sabedoria para conversas informais acerca da razão de ser. (Mirna Monteiro)

Thursday, May 26, 2011

A ARTE NAS MÃOS

Mãos não apenas de quem faz a arte, mas aquelas que são reproduzidas. As mãos sempre foram uma preocupação do artista porque dizem muito a respeito da personalidade, da vida e caráter da obra, representando uma importante ação na sua expressividade. 
Não é  sem motivo que os grandes pintores ao longo da história procuravam antes de mais nada dominar a expressão das mãos em seus retratos  ou esculturas.  E muitos conseguiram chegar a um resultado tão próximo da perfeição que se isolarmos as mãos do conjunto, ainda assim teremos a representação da obra. 
"Mão", de Picasso, encontrada entre 200 obras inéditas do pintor que foram
reveladas pelo francês Puerre Le Guennec, eletricista do artista.
Uma das mãos de Jesus, pintada por Caravaggio, que mostrava uma preocupação especial
com detalhes de suas obras. 
Também de Caravaggio, o momento em que Saulo tenta proteger os olhos da intensa
luminosidade divina
Michelângelo, na Capela Sistina, captando a ligação entre Deus e o homem
Também de Michelângelo uma das mãos de Davi, expressando força e confiabilidade


Detalhe da mão de "Habacuc", de Donatello


Estudo de Leonardo Da Vinci na busca da expressividade das mãos
O efeito obtido nas mãos da famosa obra Monalisa
Van Gogh buscava nos estudos a extrema diversidade das mãos e
de sua comunicação
Na obra "Homem Velho com a cabeça em suas mãos", Van Gogh  retrata o desalento
e a busca de consolo


O surrealismo de Salvador Dali, ressaltando a mão além do próprio homem, poderosa
para limitar ou ampliar 

Friday, May 20, 2011

SEM CONTROLE

Como na ficção, onde a sociedade futurista exibe um cenário catastrófico, as pessoas começam a "habituar-se" ao risco cotidiano. Aliás, ficção e realidade começam a mesclar-se de tal maneira que perde-se a origem de tamanha intimidade com a violência. Não se sabe se o hábito dela provém de tantos heróis e bandidos socando-se e metralhando-se nas telas do cinema e da TV, ou se as telas exibem apenas o cotidiano retratado.
Uma prova de que existe certa tolerância à violência imiscuindo-se em nosso inconsciente é a tendência da ficção em criar vilões simpáticos e merecedores de um final onde o crime não é necessariamente punido. Que tendência é essa a de realizar torcida - se bem que discreta- de encantadores bandidos que conseguem com inteligência e perícia burlar o sistema em roubos milionários?
Talvez seja exagero responsabilizar os vilões simpáticos - aqueles que parecem não ameaçar o indivíduo, mas o sistema tão criticado pelas suas próprias flacatruas capitais - pelo estado de disseminação e certa condescendência à violência. Uma criança que assiste aos filmes e desenhos onde se luta o tempo todo e onde os vilões das historias se tornam cada vez mais truculentos também poderá se transformar em alguém  que interpreta agressões e assassinatos como uma fatalidade ou uma circunstância natural do meio.
Ainda temos imagens da realidade cada vez mais sangrentas. Guerras não são registros do passado, mas ameaça presente. A repetição de erros históricos muda a interpretação da vida.
É preocupante. Nos habituamos a marcas de refrigerantes e a moda fast-food e o poder da imagem e o sugestionamento das ações certamente também muda a nossa interpretação do que seria abominável ou "natural" em uma sociedade tão contraditória. Pode ser que não se chegue ao extremo de fabricar agressores e transgressores em série, mas parece inevitável reconhecer que estimulamos quem já possui tendências agressivas para liberar seus "instintos bestiais".

Em um momento onde os mecanismos de defesa social andam em crise - cadê a Justiça e os recursos para controle dessa epidemia de violência? - a situação parece muito pouco confortável para o cidadão comum.
Um dia um grupo de rapazes munidos de soco-inglês e barra de ferro (o que demonstra a intenção prévia de algum massacre) aborda um casal na rua Augusta e agride o jovem, que é negro; em outro grupo resolve agredir homossexuais. O que está provocando o recrudescimento de grupos radicais e preconceituosos entre adolescentes e jovens que não vivem na pobreza, mas em situação relativamente confortável do ponto de vista de consumo.
O que levanta outra questão: o que leva pessoas de classe média (remediada ou alta)a ter uma carga de ódio tão grande a ponto de criar uma situação tão artificial de dor e sofrimento a outros? Que tipo de ideal desregrado leva à formação de grupos que pregam o odio racial e a discriminação a homossexuais, como o neo-nazismo, que por incrivel que pareça cresceu nos últimos anos no mundo todo?
Desajustes perigosos, que não podem ser menosprezados ou considerados transitórios. São um tipo de reação diferente de outras formas de violência,  igualmente chocantes, mas que são vistas como "preocupação menor": aquela que invade o trânsito e torna uma discussão besta palco de assassinatos. Ou as agressões dentro do próprio lar, a mulheres e crianças. Ou ainda a pedofilia, inexplicavelmente atuante, chocante e inaceitável.
Bem, em um mundo onde crianças são jogadas pela janela ou envoltas em sacos de lixo e jogadas em caçambas, como um brinquedo descartável, a dor e o sofrimento parecem inevitáveis para quem ainda mantém a sanidade, vivendo com suficiente bom senso e sensibilidade para respeitar a vida. É preciso valorizar o que resta de sanidade e criar mecanismos legais que punam com rigorosidade os bandidos que não são os marginais das ruas, mas os pseudos bons cidadãos do ambiente doméstico. Mães e pais que não respeitam a importância da vida de seus filhos e o direito da criança não podem ser simplesmente denunciados e dispensados, como se tivessem cometido uma má ação ao invés de um crime bárbaro, assim como integrantes de grupos radicais.
A única solução para coibir a escalada da violência social é a rigidez absoluta no tratamento desses casos, sem qualquer clemência a quem comete atos de covardia e violência extrema.