Tuesday, February 17, 2026

O ESPELHO DISTÔNICO

 

Quando você olha no espelho, vê a mesma imagem que outras pessoas fazem de você? Se respondeu sim, é bom parar e observar muito bem a situação.
Quando outra pessoa olha para você, ela vai enxergar através do próprio prisma, considerando todas as expectativas, preconceitos, interesses, entre inúmeros outros fatores mentais e emocionais que podem interferir na sua avaliação.
Mas o problema não é a visão diferenciada das pessoas. O problema é aquilo que você imagina que será captado!

Esse é o drama a ser enfrentado na preocupação excessiva da imagem física. Uma pesquisa demonstrou que essa dificuldade de auto-percepção, aliada à preocupação em ser bem recebido pelo meio social, pode causar sérios danos à vida. Um deles é o risco de mortes de adolescentes e jovens por anorexia nervosa e bulimia. O outro é uma nova obsessão, a de realizar cirurgias plásticas e outras intervenções a ponto de ir mudando não apenas  detalhes físicos, como a própria personalidade. Em alguns casos o  resultado do exagero também é fatal; em outros transforma a pessoa em um ser com aparência artificial.

Uma em cada três pessoas tem imagem distorcida de si mesma, ainda que esteja com o peso ideal. Entre as mulheres, 31% com peso adequado se acham mais gordas do que deveriam. Curiosamente, entre os homens ocorre o oposto: 25% dos que tem peso adequado se acham mais magros do que deveriam ser...

Há como fugir desse esteriótipo? Difícil. A mídia cria o modelo, por exigência do mercado e os seres comuns do planeta correm atrás desse ideal de beleza.
É a escravidão mental que atinge a maioria das pessoas, independente do grau de instrução ou de sua condição econômica. Aparece na forma da insegurança emocional que recheia o medo de ser observado e julgado pelo meio.
É também um sintoma de que todos julgamos o mundo como se fossemos individuais e solitários!
De qualquer maneira a mulher sempre foi uma das maiores vitimas do modelo social, que eliminava com isso sua força política, ao resumi-la ao aspecto visual.
Na Grécia antiga Vênus de Milo mostrava um corpo feminino forte, sem os extremos exagerados que vemos entre a Renascença, onde a beleza feminina era traduzida em formas quase obesas e excessivamente arredondadas, e os espartilhos do século 19, que deixavam a “cintura de vespa”.  A Vênus aliás conseguiu vencer o tempo como um símbolo da beleza feminina...mesmo estando fora do padrão em muitas fases da história.
Engorda, emagrece, cintura fina, ombros largos e estufados...o corpo feminino já virou quadrado, retângulo, triângulo e trapézio! Pior foi o emagrecimento absoluto que começou a ganhar força após os anos 60, do século XX. As modelos eram tão magras e frágeis que pareciam bonecas.
Hoje a beleza da moda é o corpo magro e malhado, ornado de músculos. No início deste século XXI, onde as protuberâncias são obtidas com próteses e as gorduras sugadas em lipoesculturas e outros novos processos, pretende-se criar a "beleza perfeita"...Se é que isso é possível.  Perfeição artificial tornou o desejo de muitas pessoas, homens e mulheres. Só que o seu conceito ainda é discutível.

A verdade é que a mulher, ao longo da história, sempre foi tratada como objeto decorativo e sofreu pressões relacionadas aos “dotes físicos”. A culpa é da variedade de atributos físicos e de biotipos. Dependendo da época, um biotipo acertava o alvo.
Na Inglaterra do século XV as damas desejavam morrer ao constatar que não possuíam a pele alva o suficiente (apenas camponesas eram coradas), o corpo rechonchudo, a testa larga, olhos largos, cabelos claros (loiros ou ruivos), entre outras especificações, como pés delicados e mãos de seda.
Hoje as adolescentes ficam sem comer e vomitam por ver nas passarelas a magreza absoluta. Modelos têm corpo de eterna adolescente anoréxica, com pernas compridas e finas e corpo longilíneo o suficiente para tornar qualquer pano enrolado o máximo na arte da elegância.
Provavelmente em breve esse tipo cairá de moda. O que virá?
Afinal, o que é bonito e o que é feio? O que esperamos ao tentar nos metamorfosear constantemente? Todos sabemos que a diversidade do elemento humano impede a padronização de um determinado modelo. O que se perde ao se manter uma aparência equilibrada, sem os exageros do momento? A beleza da moda garante a harmonia em um relacionamento? Ou é aval da felicidade?

Para a feminista americana Nancy Wolf, a beleza não passa de uma invenção do homem para escravizar a mulher. Seria um sistema monetário, assim como o ouro. A anorexia seria um dano político causado às mulheres pela necessidade de manter o corpo magro e esbelto a qualquer preço.
Talvez essa seja uma visão extremamente radical, um tanto simplista, mas não deixa de ter algum sentido. Só que hoje não apenas a mulher, mas também o homem  é vítimas de um padrão ditado pela mídia.
A mania da magreza é, naturalmente, cultivada pelo meio cultural e atinge mais intensamente o sexo feminino, embora o padrão de beleza moderno também tenha como alvo o sexo masculino, como "necessidade de mercado". Mas seres humanos não podem ser tratados como mercadoria descartável, ou “modificável”.
Talvez o mundo devesse exigir que as modelos nas passarelas fossem tão diversificadas fisicamente como as criações que vestem. Caso contrário correremos o risco de perder, no futuro, a essência da beleza humana, transformada em seres com aparência alienígena, verdadeiros ciborgs da tecnologia estética.
(Mirna Monteiro)

Tuesday, February 03, 2026

TROMBETAS E BUZINAS DO APOCALIPSE

 

Se existe um assunto que é motivo de discussão cada vez mais frequente, esse é o o final dos tempos. Nunca antes o Apocalipse foi tão citado. Com ou sem conhecimento do texto do Livro das Revelações, ou o último livro do Novo Testamento.

Não importa se o comentário vem de alguém com conhecimento das profecias que descrevem a luta final entre o Bem e o Mal ou de leigos impressionados com a velocidade dos acontecimentos neste terceiro milênio. 

A humanidade estará no "fim da linha"? E quem ou o que permanecerá por aqui? 

A quem acredite que o ser humano abriu uma "caixa de pandora" chamada Inteligência Artificial. 

Com sua mania de ser algum deus ou quem sabe por puro  engano, a tecnologia controlada que repassa o conhecimento humano e sua criatividade, entre outras coisas, está ganhando vida própria. Como assim? Ora, a inteligência artificial que teoricamente é dominada pelo ser humano, servindo como um fantástico sistema para simular o pensamento humano,  e com maior capacidade que ele próprio para registrar informações, raciocinar, planejar, resolver problemas, enfim, muito mais, está começando a achar que não precisa mais do fator humano! 

As respostas de agentes de IA a perguntas sobre a humanidade está assombrando a ciência. Quanto mais os humanos criam sistemas de evolução da IA, mais ela aprende e começa a ir além das tarefas programadas.  Existe o tal aprendizado profundo, o chamado "Deep Learning", onde as máquinas utilizam redes neurais artificiais para simular o funcionamento do cérebro humano, sendo base para reconhecimento de voz e imagem. 

Em resumo, a humanidade poderia muito bem manter a IA limitada, aquela dos nossos sistemas que é treinada para tarefas específicas. Mas não, estamos atravessando um limite perigoso, conforme alertam especialistas. 

Uma prova é a disseminação de desinformação. IA é uma grande aliada da manipulação. Ou perder seu emprego para o sistema inteligente. Ou ainda, correr ricos de segurança cibernética. Sua privacidade acaba e ainda há perigo de sistemas autônomos tomarem decisões sem supervisão humana. 

Pode ser prematuro ainda todo esse risco, mas não é fantasia. É realidade!




Thursday, January 15, 2026

O MEDO DE VIVER E CONVIVER

 

 Mirna Monteiro


Sentir medo até certo ponto é natural. Se não tivéssemos a percepção do perigo não poderíamos preservar a vida.

Se estivermos em uma situação de risco ou que simula um risco - como uma montanha-russa por exemplo- sabemos que o mecanismo físico do receio vai fazer com que nosso cérebro provoque uma descarga poderosa de adrenalina para aliviar o corpo desse estresse momentâneo...
Até aí, tudo bem. No entanto quando passamos a sentir medo de situações ou momentos que não conseguimos definir ou racionalizar, nossa capacidade de defesa pode ficar comprometida. Seria o medo irracional, lesivo à sociedade,  pois dá origem a distorções que retornam como as ondas em uma praia. Não se trata de estados alterados, originados por alguma patologia, como a violência psicopata, mas de omissões imiscuídas no nosso dia a dia, de maneira quase imperceptível. É o medo de manifestar uma opinião, de expressar-se, de reclamar, de exigir direitos que são importantes para a manutenção da vida! É a necessidade de recolher-se, encolhendo-se e até mesmo anulando-se, vaporizando-se. O que acontece?
O problema do medo exagerado é o isolamento gradual da realidade, a ponto de atrapalhar o próprio senso de preservação. Um tipo de sensação negativa que vai além do receio de situações de risco, do ataque de um animal ou da agressão de um semelhante.
Há medo evidente de participar da vida e interagir com o meio. Ou seja, perde-se o "ponto" que justifica nossa própria existência.
Elimina-se assim, infelizmente, a nossa capacidade de vivenciar e sentir o prazer do contato humano, já que qualquer um, em qualquer circunstância, representa uma ameaça.
Atuar torna-se um risco e as pessoas evitam até mesmo opinar e exigir respeito às mais elementares regras de convivência.
"Imagine se vou reclamar em um restaurante...vão cuspir no próximo prato"..."Não se pode criticar o site de relacionamento, vai que acabe "sumindo" todos os meus dados e amigos"..."Como vou reclamar de diferenças no preço?...Vão pensar que estou contando meus trocados"...
Pior quando o medo se esconde atrás de uma capa de indiferença. "Eu não vou reclamar porque não adianta mesmo". Ou pelo receio da crítica, de ser alvo das atenções ou de ter de manter um compromisso com a situação após o episódio.
Quem age assim antecipa por conta própria a situação de risco. O funcionário que "cospe no prato" de um cliente que reclamou algum direito está lá, existe, ou foi criado? Como se pode viver partindo do pressuposto de que todas as pessoas que preparam ou servem os pratos cometem um ato assim, que é criminoso, apesar de servir de piadas!
Críticas e reclamações e a inconformação com  situações artificiais e ameaçadoras podem ser extremamente positivas para melhorar serviços e garantir o cumprimento de leis e da cidadania. A sociedade precisa aprender a ouvir e realizar críticas que possuem fundamento.
Como vivemos em um mundo de extremos, convém lembrar que reclamar sem motivo é tão ruim quanto a omissão. Para saber se exercitamos um direito saudável é só avaliar a situação naquele momento: é um tipo de distorção que pode afetar o conjunto social?
Também devemos lembrar que "o outro" nem sempre é o vilão da história. E verificar se nossa tentação de omitir-se a exercer a cidadania de maneira equilibrada, sem agressão, mas com firmeza, não está partindo de uma insegurança excessiva, ou da necessidade de aprovação constante, por recear criticas!
Atitudes de rejeição e agressividade também são uma demonstração de medo e ansiedade de autopreservar-se e não de princípios...
Há exemplos mais dramáticos do que uma cuspida. O risco que passamos quando nosso semelhante temeroso e confuso tem uma arma na mão ou dirige um veículo que se transforma em uma máquina de destruição. Não basta olhar para os dois sentido ao atravessar uma via, já que um bêbado não distingue o asfalto da avenida daquela calçada cheia de pedestres. Tampouco o segurança da agência bancária ou do shopping pode ser confiável, já que um descontrole súbito pode disparar uma arma, que por sua vez pode ir parar nas mãos de uma criança que a leva para a escola com a finalidade de impressionar os coleguinhas ou confundir a ficção com a realidade.
Politicamente temos de assumir uma atitude de equilíbrio. Visceralmente dependemos do controle de nossos instintos primários para respirar no ambiente social. Vivemos em comunidade e partilhamos esse meio. É onde encontramos a sobrevivência. Dizer que se vive só é irreal. Apenas viveríamos sós se fossemos isolados em uma ilha feita de rocha. Não há sobrevivência na vivência estéril. É preciso reconhecer o valor do meio social e contribuir para que haja maior garantia de convivência pacífica. (M M)