Friday, August 12, 2016

O BOM SENSO E O DIABO

O senso de justiça está cada vez mais espremido pela lógica de sobrevivência instintiva e individualista. O que seria isso? Cada um arrisca a sua interpretação do que seria justo, mas infelizmente com base em conceitos e deduções impostas pela ficção que pretende distrair, mas que acaba atuando subliminarmente na consciência dos desavisados.
Até que ponto a Justiça fica comprometida com as distorções do mundo moderno, onde as imagens e o apelo da mídia predominam sobre a razão imparcial, ainda não está bem definido. Mas parece que a interpretação de fatos mistura ficção e realidade. 
O interessante é que temos hoje os extremos bem delineados e visíveis a qualquer observador: quanto mais aumenta a informação e a consciência popular a respeito do que seria o senso de justiça, mais são "aprimoradas" as táticas da distorção da verdade e, portanto, dos objetivos da aplicação das leis.

LIMITES 
Nos julgamentos acompanhados pela grande mídia assistimos a um festival de estratégias que lembram um jogo, onde a verdade não é necessariamente um componente de destaque. Pelo contrário, como nossas leis preveem que o sujeito em julgamento não precisa fornecer provas contra si mesmo (óbvio) a interpretação vai solta e sem constrangimento algum na utilização de argumentos construídos ficcionalmente. Ou seja, a mentira corre solta nos tribunais, não como exceção discreta, mas como norma da defesa.
É uma situação absurda. Nesse caso provas coletadas cientificamente são contestadas pela defesa de um acusado, digamos de homicídio, não de maneira fundamentada, mas aleatória, conturbando o senso da realidade.


Objetivos da Justiça

Pois é. Parece ficção. 
No filme "O advogado do diabo", baseado em um romance do australiano Morris West, o advogado idealista na luta pela justiça acaba corrompido, seduzido por dinheiro e posição social. 
Acaba arrependido, após descobrir que a sua ganância trouxe a desgraça para muita gente, inclusive para ele próprio. A história mostra um desfecho que alivia a tensão de quem está torcendo contra o diabo. Afinal, pretende-se que a arte imite a vida. Ninguém quer que vilões terminem sempre ganhando.
A realidade pode ser bem mais complicada do que as páginas de um livro. Para quem acha que o circo armado para confundir julgamentos é consequência natural e pode ser controlado pela lógica de quem julga, inclusive em júris populares, é bom lembrar que o abuso é tamanho que o senso de justiça fica realmente comprometido e o resultado justo submetido a uma espécie de roleta russa. 
Pode ou não atingir o objetivo.
Essa liberdade em mentir ou esse "vale-tudo" nos nossos tribunais repercute naturalmente na ordem social. Não há punição para advogados que jogam com fantasias e distorções, na mentalidade que levou ao esteriótipo do "advogado do diabo", que define defesas sem escrúpulos no âmbito do sistema judiciário.
O fato reduz a credibilidade na justiça.
John Rawls filosofou a respeito, comentando que as leis são diretrizes direcionadas à pessoas racionais que tem o objetivo de viver em um sistema de cooperação social. Mas nem sempre as leis ou o cumprimento delas são expressões institucionalizadas da justiça.
O problema, lembra, é o fato de que a injustiça pode comprometer o sistema de cooperação social. 
Ou seja, quando toda a estrutura existente, criada para fortalecer esse meio, é neutralizada por fatores que não tem o objetivo comum, ocorre uma crescente desorganização social.
Se é permitido todo e qualquer argumento, mesmo que seja evidentemente falso ou com intenção de deturpar a verdade e prejudicar o objetivo da justiça, sem clara punição a quem se utiliza maliciosamente desse recurso, não há como exigir fora dos tribunais o senso da justiça e portanto a obediência civil ou cooperação da massa.
Não falamos aqui apenas dos grandes assassinatos, que acabam integrando o folclore popular, mas da justiça em todas as suas instâncias, mesmo em decisões de pequenas causas ou em questões cíveis, que podem não ser dimensionadas pela mídia, mas que são como a água sobre a pedra, provocando ao longo do tempo o descrédito no sistema judiciário. (Mirna Monteiro)

Saturday, May 07, 2016

MANIPULAÇÃO E PODER EM NOVO TEMPO


Na mitologia os deuses tinham um péssimo defeito: adoravam manipular os pobres mortais. Lá de cima do Olimpo, entre brancas nuvens e regados a nectar e ambrosia,  combatiam  o tédio inventando desafios ou mesmo benécias para alterar o destino da humanidade.
Bons ou malvados, os deuses gregos e romanos representavam qualidades e defeitos humanos. Os humanos, por outro lado, espelhavam-se nos deuses que adotavam como regentes de sua vida, fazendo orações, sacrifícios e erguendo monumentos para agrada-los e receber sua proteção! Portanto, concluímos que se os deuses manipulavam os homens, aterrorizando-os com seu poder, os homens manipulavam os deuses, tocando-os em sua vaidade e seus humores...
A sociedade humana baseia a sua sobrevivência no poder da manipulação, que assim como o bem e o mal, também tem duas faces. Um bebê depende de cuidados para sobreviver e utiliza o choro para se comunicar, mas a natureza dotou suas cordas vocais de uma sonoridade que chama a atenção para suas necessidades. Não fosse assim e teríamos sérios problemas. O ser humano é o único animal totalmente dependente de cuidados em seus primeiros anos de vida.

Se alguém aqui disser que nunca manipulou ou tentou manipular alguém ou determinada circunstância, estará certamente mentindo ou é extremamente desatento. Manipulamos sim, a todo instante, quando interferidos de maneira indireta na vida da família, dos amigos, do chefe no trabalho ou dos empregados.
Portanto a questão principal não é se somos ou não manipulados ou até que ponto obtemos sucesso com tentativas de manipulação, mas sim até que ponto somos manipulados ou manipulamos alguém! Ou a partir de quando a manipulação pode ser considerada um ato desonesto, degradante ou ainda criminoso!
Sempre houve, ao longo da história, uma preocupação crescente com a manipulação. E uma listagem enorme de crimes com esse objetivo. Por exemplo, a Biblia, que mantém em suas página o aviso de que modificações de seus escritos seria hedionda. No entanto como é que escritos tão antigos, que passaram por tantas mãos e imposições de poder político poderiam permanecer inalterados? A manipulação de seu conteúdo, com adições e subtrações de textos de várias épocas, mostra a complexidade da informação a contradição de algumas afirmações.
Mas se a Bíblia serviu ao bem e ao mal, como nos tempos negros da Inquisição, governos autoritários destruíram livros com informações preciosas com o objetivo de manter o povo na ignorância. Quanto menor a informação, maior a facilidade de manipulação. Nos tempos de hoje a informação ganhou uma dimensão inusitada, em um ambiente disseminador democrático como a internet, mas trouxe outro grande problema: qual informação procede e qual é a manipuladora?
O sujeito manipulado não tem consciência desse poder sobre sua mente, seus hábitos, seus pensamentos...Em contrapartida à maior informação, as técnicas para dominar tornaram-se aprimoradas. Uma das maneiras de manipulação envolve o inconsciente, com mensagens visuais e sonoras subliminares, que não são óbvias, mas lá estão em frações  e velocidade imperceptíveis aos olhos, captadas pelo nosso cérebro  e que permanecem no inconsciente humano tão poderosas como o grilo falante na cabeça de Pinóquio.

A investida naturalmente visa a massa, ou o coletivo, o mais poderoso "ser". Carl Jung defendia que o inconsciente coletivo - que seria transmitido as gerações posteriores, em uma herança natural,  não deriva de experiências individuais, como o inconsciente individual, trabalhado por Freud, ainda que precise de experiências reais para se manifestar. Traços funcionais do inconsciente coletivo, os arquétipos, não seriam observáveis entre si, mas apenas através das imagens que eles proporcionam.
Erich Fromm observou outro aspecto, o "inconsciente social", que seria a experiência humana tornada inacessível pela sociedade repressiva. Assim a humanidade é presa fácil da repressão do meio cultural, aliada do novo poder de influência sobre o indivíduo na vivência dessa cultura, através de mensagens subliminares em textos, filmes, video-game e todo e qualquer recurso visual e sonoro!
Talvez não seja possível avaliar até que ponto somos influenciados e manipulados. O que seria a experiência herdada, ou nossa capacidade de distinguir a razão ou ainda qual seria realmente a nossa opinião, pessoal, individual  e  original, sobre os fatos e ações de nossas vida?
Pergunta difícil de ser respondida...  (Mirna Monteiro)

LEIA TAMBÉM:

http://artemirna.blogspot.com/2010/10/arte-de-acreditarsem-enganar-se.html

http://artemirna.blogspot.com/2006/09/hipocrisia-do-poder.html

http://artemirna.blogspot.com/2010/10/arte-da-manipulacao.html

Saturday, March 05, 2016

ETA, MUNDO VELHO SEM PORTEIRA...

Independente de correr ou não atrás de uma bananeira, o mundo oferece suas alegrias e tristezas, suas certezas e enganos, suas verdades e mentiras. Isso todo mundo sabe ou percebe, desde muito cedo. 
Mas até que ponto podemos esperar alegrias, certezas e o conforto da verdade ou aceitar ilusões, má fé, manipulação e mentiras?
Isso depende de quem?

Monday, January 25, 2016

ETERNOS DESEJOS


Desejos sem fim e uma permanente sensação de insatisfação! Assim caminha a humanidade, independente de onde vive ou sob qual cultura subsiste.  Descobrir o que se persegue para anular o sentimento de perda (aparentemente a cada espaço de tempo percebido parece que algo foi perdido) parece tarefa impossível. Percorre-se grandes distâncias nessa confusão. Amealhar fortunas a todo custo...ou ir em busca de doutrinas religiosas, filosofia, espaços alternativos...o que pode equilibrar aquilo que parece ser inerente a vida humana?

Em  "Escada do Desejo", Leloup lembra a relação humana com o desejo e o medo. "Não há medo sem um desejo escondido e não há desejo que não traga consigo um medo. Estão ligados. Temos medo do que desejamos e desejamos o que temos medo". Essa relação conflitante resulta em patologias, doenças da alma e do corpo.

Freud acreditava  que amor e morte, impulso de vida e impulso de morte, integram o desafio humano. Seria o jogo de Eros e Tanato, que torna o homem ansioso pelo desejo de viver ou pela sensação de plenitude, e o medo da destruição ou da morte.

Será tão irremediável essa sensação? Se o ser humano é bastante velho para morrer assim que nasce, vida e morte são uma mesma realidade. O escritor Scott Fritzgerald tentou traduzir essa sensação de vazio humano, diante da eterna insatisfação e do medo, na história de Benjamin Button, invertendo a natureza a partir do nascimento. Se nascemos jovens e caminhamos para a morte justamente quando se atinge maior compreensão da vida e capacidade de sentir a plenitude, como seria se nascemos velhos e o amadurecimento significasse o rejuvenescer?

Aparentemente Fritzgerald não chegou a ponto algum. Inverter a ordem - nascer velho e rejuvenescer ao longo dos anos, tornando-se cada vez mais jovem e experiente - mostrou ser uma solução fugaz para o medo do fim. Sim, porque mesmo o rejuvenescimento teria de ter um final, como tudo neste mundo de constante mutação física! A morte, portanto, não podia ser evitada, pois o desfecho seria a regressão ao útero e a eternidade.

A juventude, portanto, é apenas uma ilusão do desejo de fugir da sensação de perda constante. Na verdade o que tememos é a constante mutação do universo, sempre em movimento, onde nenhum elemento é perdido, mas transformado. O egocentrismo humano é o pior inimigo, pois é dele que provém a sensação de nulidade e impotência diante do universo.

"A morte é parte natural da vida. Podemos escolher entre ignorar! Ou então olhar de frente para a perspectiva de nossa própria morte e, assim pensando claramente nela, minimizar o sofrimento que traz. Entretanto em nenhum desses casos podemos de fato vence-la", lembra o Dalai Lama. O budismo vê a morte como um processo normal. "A morte é como a troca de roupa, uma roupa que envelheceu e já não serve, e não o fim absoluto".

Mas, afirma o Dalai Lama, a própria imprevisibilidade da morte indica que, se cá estamos, devemos cuidar da vida e manter todas as precauções para seu equilíbrio. Talvez o segredo da plenitude esteja justamente na capacidade de entender que o desejar que tanto frustra o ser humano - pois não tem  limite até a morte- não têm fundamento e é incompatível com a plenitude. Viver bastante pode favorecer esse conhecimento. A ciência descobriu que conforme envelhecemos temos melhores condições de ser felizes ou de reconhecer o que realmente é importante na vida.

Isso pode ser comprovado na prática. Pessoas que têm longevidade demonstram equilíbrio e maior tranquilidade em relação ao futuro, procurando reconhecer motivos para sentir plenitude - e não mais baseando a felicidade em meros desejos. Cada novo dia é realmente uma nova oportunidade de viver!

Quem vive muito percebe mais intensamente a precariedade da vida, mas também a incrível força da natureza, que deve ser absorvida e não destruída ou transformada em nossos desejos. O arquiteto Oscar Niemayer, aos 103 anos, lamentava a partida de tantas pessoas que amou, mas reconhecia que o respeito pela vida é imprescindível. Ainda trabalhava em projetos, como sempre desprendido do dinheiro, segundo afirmava. Dinheiro que nunca teria sido para ele, mais importante do que o zelo pelas suas obra.
Alguém que ultrapassa os cem anos, hoje, não é mais surpreendente. Ainda que seja uma caminhada para poucos. O segredo, certamente, deve envolver menor estresse pela ânsia do possuir, do ter, do querer...e da frustração que atingir unicamente esses objetivos materiais provoca!

Eternos desejos, eternas insatisfações, medo e uma vida resumida em sua percepção. Parece ser esta a conclusão. Quanto mais se artificializa, mais a humanidade parece entender que o caminho está truncado e que a vida baseada na ferocidade dos recursos materiais não fornece segurança a ninguém! Não é possível sobreviver de escombros. Quem sabe não é este um início, ainda tímido, da consciência humana e da busca do equilíbrio e da tão sonhada plenitude? (Mirna Monteiro)


Thursday, January 21, 2016

REALIDADE VIRTUAL

O comentário geral era a respeito de um crime nos Estados Unidos, onde um homem matou um casal que havia excluído a filha do quadro de amigos no Facebook. O mundo virtual parece ser um lugar onde comandamos a hora de existir ou desaparecer da tela, de conversar ou simplesmente observar o "movimento". A partir do momento desconectamos, "desligamos" esse espaço. São mundos diferentes, o virtual e o real!
Não há proteção no mundo virtual, todos sabemos disso. Nos sites, a relação esperada, de privacidade, não existe, mesmo que o quadro de amigos contenha apenas familiares. O espaço, na verdade é público e mesmo que haja garantia de privacidade, a realidade indica que os dados estão ao alcance de administradores e de hackers. Permanecem "boiando" (ou seria flutuando?) em um mundo ainda pouco desvendado.
Sites de relacionamento parecem  ser uma sala de estar isolada. É difícil imaginar o espaço virtual protegido por senhas e rodeado de regras como uma sala em ambiente público.
Essa realidade desagrada. As pessoas sentem necessidade de partilhar sua vida, suas alegrias, seus momentos de sucesso, a relação amorosa ou familiar, da mesma forma que os momentos de tristeza ou depressão. Isso é natural porque o ser humano é um animal social, preparado para conviver em grupo até mesmo para garantir a sobrevivência individual, que se torna mais garantida na sobrevivência mútua.
A relação virtual aproxima tanto as pessoas conhecidas - familiares e amigos - como reduz ou elimina o distanciamento entre pessoas desconhecidas que iniciam uma amizade através de interesses comuns. Sem essa "mágica" virtual que elimina distâncias e derruba as paredes, a possibilidade de ampliar o conhecimento fica realmente muito reduzida.
Reduzida demais para quem se habitua a navegar em um espaço que seduz justamente pelo fato de funcionar sem a carga da materialidade. Um espaço realmente sedutor, constantemente ampliado por novos recursos. Com um dispositivo mais leve e fino do que um livro, pode-se acessar e ler infindáveis obras literárias, escrever, desenhar, criar projetos, trabalhar, ouvir música, conversar, fazer compras, enfim...a ponto do sujeito que navega em um espaço tão diversificado e aparentemente infinito em suas possibilidades perguntar-se se não está havendo alguma inversão e aquilo que consideramos o mundo real não é na realidade uma espécie de limbo!
Como lidar com esse novo mundo e suas possibilidades e riscos entretanto, não é assim tão fácil. Por trás da mágica dos recursos e da sofisticação tecnológica, existe a mesma matéria básica dos tempos das trevas ou dos conflitos da civilização: o conteúdo humano, dividido entre a construção e a destruição, a verdade e a mentira, a necessidade de relacionar-se e ampliar os horizontes e a capacidade de distorcer e manipular o meio.
A grande verdade é que explorar o ciberespaço tem menor risco do que o mundo real no que se refere à preservação física (pelo menos imediata) mas não existe nenhuma garantia de segurança em qualquer outro sentido!
Mundo material, mundo virtual, mundo emocional, mundo espirital...parece que a relação humana com espaços que pareciam fictícios e isolados finalmente se fundem em um mundo inteiramente novo, diferente, mas não mais improvável!  ( Mirna Monteiro

Tuesday, July 07, 2015

PREVISÕES E PROFECIAS

Quando ouvia dissertações sobre previsões e profecias em uma palestra, o sujeito na platéia adiantou-se e opinou: "Não há fundamento! Quando se acerta alguma coisa é coincidência e quando não se acerta está claro que não passa de pura imaginação humana, de ficção"! A sua frente a pessoa sorriu e pediu que um outro ouvinte abrisse um bilhete que havia recebido na entrada: "O que está escrito a respeito? " . "Que alguém sentado na terceira fileira discordaria e iria se manifestar contra a idéia de prever qualquer coisa"!

Bem, previsão comprovada!...
Quando negamos a possibilidade de prever os acontecimentos, negamos a nossa capacidade de observar, sentir e projetar a mente. O sábio Confúcio já sabia que não se pode viver como um mero expectador da vida, esquecendo-se de que toda a ação e pensamento determinam aquilo que a humanidade será. "Aquele que não prevê acontecimentos longínquos, expõe-se a desgraças próximas".
É verdade que prever os fatos é diferente de profetizar, mas apenas sob um ponto de vista relativo. Uma previsão baseia-se na observação do passado e do presente e uma profecia tem como mediador a visão do futuro, sem preocupar-se em estabelecer a lógica dos acontecimentos que formarão uma nova realidade.
A idéia que se tem de profecia lembra um ambiente místico, onde seres que se isolam das tentações terrenas mantém a mente livre para captar imagens do futuro através de uma sintonia que vence as barreiras do tempo. Durante toda a história da humanidade e em culturas diferentes, a profecia sempre manteve um lugar de honra, fosse na forma do Oráculo de Delphos, do feiticeiro reverenciado pela tribo, das sacerdotisas ou de sociedades místicas.
No entanto prever o futuro é uma questão de lógica, conforme a própria ciência descobriu. Nos velhos tempos os pajés tentavam descobrir quando iria chover. Nos nossos tempos equipamentos mostram claramente os mistérios da metereologia.  Oráculos tentavam desvendar os movimentos sísmicos, que hoje são claros para a geologia, que assim como a astronomia consegue prever desastres naturais da terra ou do sistema solar.
Mas será que tudo é assim mesmo, tão simples? Poderíamos através da lógica, da lei de ação e reação, dos conhecimentos da física, prever acontecimentos e evitar as desgraças e o sofrimento decorrente delas? Poderíamos evitar um divórcio em família, um assassinato passional, um acidente de trânsito ou o desmoronamento de uma encosta?
Até certo ponto, certamente teríamos de admitir essa possibilidade. Se sabemos que andar nas ruas em determinados horários pode colocar em risco nossa integridade física, assim como dirigir em estradas em alta velocidade é sinal de acidente iminente, por que isso acontece ordinariamente?

Podemos alegar que é uma questão de circunstâncias alheias a vontade. Por exemplo, enfrentar o trânsito em alta velocidade é contingência da sobrevivência...enquanto que morar em encostas é unica alternativa para um teto, apesar de que as encostas também foram desmatadas para a construção de mansões...e assim por diante! O ser humano parece viver de justificativas e argumentos de sobrevivência que contrariam a própria auto-preservação.
Nostradamus, médico e alquimista conhecido pelas suas profecias, inclusive a do fim do mundo (se é que interpretamos suas quadras com alguma precisão), teria pressentido a morte do rei Henrique II, nos contatos com a rainha Catarina de Médicis, e avisado que o Rei não deveria participar de qualquer torneio até os 41 anos. E Henrique morreu exatamente aos 41 anos vítima de uma lança que atravessou a armadura, atingindo um dos olhos, em um amigável torneio!
Parece que seja em tempos ainda obscuros, seja em plena era da ciência, a questão não é exatamente a falta de previsão, mas a vocação humana para o imediatismo e para o desafio...além do desleixo com a vida. Em tempos de grandes desafios, negar a necessidade de prever os acontecimentos é o mesmo que entregar-se aos riscos. É uma forma de descuido. Mesmo considerando a força do inevitável - acontecimentos que mesmo sendo previstos e cuidadosamente evitados ainda assim ocorrem por força de circunstâncias que independem da vontade humana - a atenção ao meio e à sequência natural dos fatos precisa ser conscientizada, com a mesma convicção com que se escova os dentes para combater as cáries ou se toma água para evitar a desidratação.

Devemos crer nas previsões e profecias? Sem dúvida!...(Mirna Monteiro)